Nothing Compares to Him

"Prince era demasiado jovem para ser rei"

Num mundo, como a música, tão virado para títulos monárquicos (o rei do rock, a rainha da soul, a rainha da pop, o rei disto e daquilo), Prince antecipou-se e escolheu o seu. O de príncipe. E assim morreu. Aos 57 anos, era ainda demasiado franzino, irrequieto e inconformado para a figura mais bolachuda de rei. O cadeirão do trono era pesadão para figura tão movediça e dançarina. Em 2016, Prince tinha uma garra adolescente, com um andamento de edições difícil de acompanhar (só no ano passado tinha publicado dois álbuns: Hit n Run Phase One e Hit n Run Phase Two). E era cada vez mais um contra-sistémico, pouco dado a colaborar com a indústria dos dias de hoje (o bloqueio ao YouTube é só um exemplo, podiam dar-se outros). É impossível encaixá-lo num perfil de rei.

Ao contrário das celebridades que o são sem percebermos porquê, nós sabíamos bem o talento que fazia Prince ser reconhecido publicamente. E no entanto, Prince era tudo menos uma celebridade. Ao longo destes anos todos, Prince envolveu-se na nossa vida: aquela canção que marcou um Verão, o vídeo que nos deixou pasmados durante uma tarde mais caseira, aquele hit que ajudou a tornar memorável uma jornada boémia qualquer. Prince tinha um lote de canções de peso (vamos enumerar ao acaso Kiss, When Doves Cry ou Alphabet St., podiam ser muitas outras as ordens das canções) para se intrometer em várias etapas de milhões de vidas à volta do mundo. E, no entanto, não sabemos quase nada da vida de Prince. Mesmo o problema de saúde da semana passada, que o obrigou a aterrar de emergência horas depois de um concerto em Atlanta (o seu último de sempre), foi um mistério que nem a eficiente imprensa sensacionalista conseguiu então desvendar. Conhecemos bem as suas canções, jamais a sua sala-de-estar. Excêntrico, sim. Recatado, também.

Dirty Mind (de 1980), 1999 (de 1982), Purple Rain (de 1984), Parade (de 1986), Sign o' the Times (de 1987), Diamonds and Pearls (de 1991). Bastaria um álbum destes para o imortalizar. No entanto, Prince fez todos estes e mais alguns. Ridicularizando o seu metro e 57 de altura em vez de ser ridiculizado, Prince foi um superhomem da música: ele era ao mesmo tempo Jimi Hendrix, James Brown e Michael Jackson. Sabia bem mexer-se em palco, era um guitarrista exímio e um campeão de falsetes. Quantos hoje não reclamam a sua influência, de Pedro Abrunhosa a Beck?

Da má fama, 2016 não se livra (depois dos roubos de David Bowie e do «quinto Beatle» George Martin). Mas a boa fama, a Prince ninguém tira.
 
Artigo de opinião
Gonçalo Palma
certificadom80