David Byrne: espetáculo de intervenção

Concerto no EDP Cool Jazz foi também alimentado por alguns temas dos Talking Heads.
12 jul 2018
Gonçalo Palma
Música

Tal como se esperava, sobretudo vindo de quem vem, David Byrne foi senhor de um espetáculo de topo esta noite no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais. A forte actividade em palco do ex-Talking Heads, de bem há muito com o seu cabelo grisalho, é acompanhada por uma corte de 11 músicos ambulantes que dá ainda mais ênfase às suas canções e ao carácter interventivo de que se faz este espetáculo. Byrne aproveita ainda a facilidade tecnológica querida às estrelas pop do microfone headset que o permite deambular livremente - ele e os seus músicos
 
Estão todos de pé. Não há músicos sentados. Aquela dúzia de músicos avança para a frente e para atrás em coreografia, com movimentos em palco tão exuberantes que nos esquecemos que também tocam. Não há kits de bateria, apenas tambores espalhados por vários músicos. Os outros instrumentos entram e saem de cena, tal como os seus intervenientes. Esta postura ambulatória dá-se em contínuo, sem nenhum momento de ruptura, independentemente se se toca o material a solo de David Byrne, ou os temas dos Talking Heads, a sua antiga banda.
 
Tal como no filme-concerto dos Talking Heads, "Stop Making Sense" (de 1984), David Byrne começa sozinho em palco, mas desta vez segurando um crânio enquanto canta Here, um dos sete temas do novo álbum American Utopia que se ouviu esta noite.
 
À terceira música, já um amontoado de gente em pé dançava em frente do palco, a desprezar acertadamente a fisionomia da plateia sentada naquela zona privilegiada. O motivo deste descontrolo da populaça era que já se ouviam temas dos Talking Heads. No caso, I Zimbra, seguido do pujante Slippery People, a aquecer o ambiente na opção mais quente do micro-ondas musical.
 
Ouve-se um dos temas da colaboração de Byrne com St. Vincent, I Should Watch TV. Depois as luzes avermelham para a reflexão sobre a América em Dog's Mind. No seu primeiro discurso para a assistência numerosa que quase enchia o recinto, David Byrne recorda uma vinda a Cascais para um festival de cinema (o Lisbon & Estoril Film Festival). Mas mais importante, faz um apelo para que todos votem - contra os perigos na América e na Europa. "Podem pensar em Portugal que estão a salvo mas não estão". Este foi o mote para David Byrne cantar uma das suas músicas mais fortes da sua carreira solo, Everybody's Coming to My House, o principal postal para o seu álbum American Utopia.
 
Mas as músicas dos Talking Heads têm o seu peso. Em This Must Be the Place (Naive Melody), David Byrne não dançou com um candeeiro com fez na ultima digressão dos Talking Heads. Em Once in a Lifetime, com os focos de luzes só sobre ele, o cantor volta a fazer uma performance colérica como nos velhos tempos, testando a agilidade física do seu corpo já com 66 anos. Born Under Punches (The Heat Goes On) tresanda a noite urbana já avançada. Blind é outro tema dos Talking Heads, com o tal funk. Burning Down the House serve mesmo para mandar tudo abaixo com todo aquele aparato cénico em que o número também conta.
 
No primeiro encore, David Byrne canta Dancing Together fazendo citações de Imelda Marcos, a antiga primeira-dama filipina. Segue-se o tributo justo à desbunda dos Talking Heads em The Great Curve. O encore final é entregue à versão da canção de protesto de Janelle Monáe, onde Byrne e companhia enumeram os afroamericanos mortos pelas autoridades policiais nos Estados Unidos.
 
Em tom mais suave decorreu a primeira parte, a cargo de Sara Tavares, que canta sempre com um sorriso temas como Coisas Bunitas ou Bom Feeling. Apoiada por mais cinco músicos, Sara Tavares deu azo ao seu crioulo e à sua herança cabo-verdiana. "Não estou habituada a primeiras partes", queixava-se com razão. Sara Tavares já é grande de mais para este formato. A cantora parece estar a caminho da dimensão messiânica.
 
 

 

 

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