Música

Caetano Veloso em modo carioca

Espetáculo no Casino Estoril partilhado com a cantora Teresa Cristina.

17 de maio de 2017 às 02:25 por Gonçalo Palma
Nuno Fontinha

Diante de um público onde abundavam figuras públicas (Lili Caneças, Jorge Coelho, Maria de Belém, Miguel Relvas, Joaquim Oliveira, Manuel Damásio ou o escritor angolano José Eduardo Agualusa, só para dizer alguns), Caetano Veloso comandou no Casino Estoril um concerto tripartido, que tem como mote a essência do samba carioca: a "Voz e Violão" que intitula o espetáculo

A cantora Teresa Cristina fez a primeira parte, totalmente dedicada à obra do sambista carioca Cartola. Com Carlinhos Sete Cordas no violão, Teresa Cristina deu voz a alguns dos temas que se tornaram familiares na música brasileira como 'O Mundo é Um Moinho' (já interpretado por Ney Matogrosso e Cazuza) ou 'Preciso Me Encontrar'. Mas o seu tributo a Cartola ultrapassa as fronteiras da rivalidade das escolas de samba do Rio de Janeiro, ao ousar cantar um tema do grande rival Mangueira em 'Sala de Recepção' - ela que é adepta da agremiação carnavalesca da Portela.


Depois foi a vez de Caetano brilhar, sempre sentado com o violão, de óculos e roupa mais formal, adequada ao Casino. Com a sua voz singela ainda tão jovem, Caetano estava num registo tão intimista e despojado que quase poderia tocar na sala de nossa casa.  Sem meias-medidas, descarregou o arsenal das suas melhores canções e deu um concerto que foi um regalo.
 
Como cantar os temas mais célebres não paga imposto, Caetano interpretou músicas de primeira monta como 'Luz do Sol', 'Um Índio', 'Meu Bem, Meu Mal' ou 'Esse Cara', onde os fãs de primeira linha se fizeram ouvir.

Caetano leva-nos depois ao areal com as baladas salpicadas de mar 'O Leãozinho' e 'Menino do Rio'. Testa a sua fluência na língua castelhana em 'Cucurrucucu Paloma', que está eternizada pelo próprio músico numa das cenas do filme de Pedro Almodóvar, "Fala com Ela".

'Reconvexo' é concluído com uma rítmica salva de palmas do público. 'Love for Sale', de Cole Porter, inspira Caetano a um solo vocal, com o violão erguido ao alto e suspenso no ar e no descanso. E não resiste em homenagear os grandes compositores norte-americanos em que inclui, no breve discurso, o Nobel da Literatura, Bob Dylan.
 
Depois, Caetano pega na máquina do tempo e viaja até 1968 e ao tropicalismo através de 'Enquanto Seu Lobo Não Vem' (de contestação à ditadura militar brasileira de então) e de 'A Voz do Morto', com o tal viva ao carioca Paulinho da Viola.

Já na reta final, o músico dá-nos 'Um Abraçaço', quase um rap cantado. 'Sozinho' é o tema que está melhor decorado pelo público presente no casino. Mas é em 'A Luz de Tieta' que Caetano deixa o público a cantar enquanto sai do palco.

O regresso é feito na companhia de Teresa Cristina e logo a seguir de Carlinhos Sete Cordas. É nos duetos com Caetano que a voz de Teresa Cristina brilha mais, sobretudo em Tigresa. Mas nem só de temas de Caetano Veloso viveu o encore que muito do público mais apressado já não viu. O clássico de Roberto Carlos, 'Como Dois e Dois', desgoverna a matemática amorosa e é tocado e cantado ali no Casino, num dos momentos altos do encore que termina com 'Qualquer Coisa'.
 
Nesta noite de quarta-feira, há mais.


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