Ganhei coragem e fui: a minha primeira longa viagem de mota

De Lisboa à Pampilhosa da Serra, sem pensar muito no assunto. E que bom que foi!
Por: Anabela Gonçalves
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"Daqui a vinte anos, estarás mais arrependido das coisas que não fizeste do que das que fizeste. Então joga fora as amarras, navega para longe do porto seguro. Agarra o vento em suas velas. Explora. Sonha. Descobre." - Harriett Jackson Brown Jr.

Foi a minha primeira longa viagem de mota. A "avó" Belmira disse para eu "fazer tudo o que puder". Tem 88 anos. Eu fui. Sozinha no regresso. Duas grandes amigas na ida. Miúdas. Raparigas da minha idade. Três, cada uma na sua mota. Cena de filme, como diz o meu diretor. Elas de desportiva acima dos 1000 de cilindrada. Eu numa Virago 250 de 1993. Lá em casa dizem que eu gosto é de "charutos". Eu chamo-lhes clássicos, mas ninguém me entende. E lá foram elas a escoltar a "Zum Zum Ferrinhos" que não rolou acima dos 120km/h no autoestrada e 70-80 na nacional. A Sunshine e a Lady Ninja são sem dúvida das maiores companheiras de estrada (e) da vida.
 
E lá fomos nós, de Lisboa à Pampilhosa da Serra para uma pequena concentração motard. Tão familiar como a casa de amigos aonde a hospitalidade obriga à improvisação de refeições para quem não come carne: a je, moi meme, me, myself and I. Mas o divertido destes encontros é de facto a viagem. A partilha, a entreajuda e o civismo entre os motards (antagónico ao motoqueiro rufia) e para com a comunidade em geral, enchem o meu peito de orgulho. Na verdade tenho praticado pouco, mas sou motard dos pés à cabeça desde os meus 13 anos. 
 
O Nandinho tem 62 e é a pessoa mais livre que já conheci na vida. Não há estrada ou tasca deste país que ele não conheça como a palma das mãos. Sempre que pode, ele e o pai, ele e o Max (o cão) ou ele sozinho de mota. Não gosta de estar parado muito tempo. Pela manhã cedo fomos nós três: eu, ele e o Tó. Cada um na sua, com o Nando a guiar-nos por entre paisagens de verde e dourado profundos e aromas inebriantes. Eu senti-me como daquelas vezes em que ficava com cara de parva porque estava apaixonada e não conseguia disfarçar, de olhos esbugalhados e sorriso congelado nas bochechas o tempo todo. Arrebatador.
 
Banho na água fresca em Janeiro de Baixo, almoço tomado na Pampilhosa e fiz-me à estrada sozinha. No dia seguinte pela manhã teria de estar a 300km dali para passar o dia com os meus velhotes e eu e a minha "ferrinhos" vamos indo devagarinho para poder olhar o caminho todo com olhos de ver.
 
Em direção a Coimbra (fiz o desvio para matar saudades de casa), numa viagem gingona e tão boa que não consegui acreditar por uns largos minutos que a minha motinha tivesse ficado sem bateria mesmo às portas da cidade. E nem assim o meu sorriso quebrou: à custa disso, "a" viagem ainda me ofereceu presentes como o reencontro com amigos que não via há anos (para ajudar a rebocar, para a arranjar a motinha e no autocarro a caminho de casa) e ainda pude dar um beijo à minha ex-sogrinha do coração. Encontros tão improváveis quanto felizes.


Ao fim de 300km de mota e 200km de autocarro, cheguei finalmente a casa, pousei as coisas, dei de comida às gatas, inspirei-me no azul que pintava o lado de fora da porta do terraço, peguei nas chaves da acelera do meu Mais-Que-Tudo e lá fui eu mais 54km de vento no rosto. O Ti Carmindo, ou o meu querido pai, ganhou o dia quando já não esperava a minha visita. Eu ainda ganhei um frigorífico cheio.

Considero-me corajosa, destemida e atrevida, e mesmo assim levo uma vida inteira para fazer coisas que nunca fiz. Correr riscos que nunca corri. E desta vez eram 5h da tarde quando me desafiaram para arrancar na manhã seguinte e levar a minha velhinha Virago numa das viagens mais bonitas da minha vida toda. E das mais duras. A recompensa não é mensurável, mas a lição foi demasiado real. Uma das pessoas com quem almocei no primeiro dia desta viagem perdeu a vida numa das curvas que pude fazer a sorrir, apenas alguns minutos depois de mim. De mota.  


A vida é um livro de exercícios exigentes e de lições sobre tanta matéria. A lição que levo destes três dias resume-se a um indescritível sentimento de gratidão que resulta da soma da abstinência de expectativas ao desconforto de quebrar rotinas. Isto sim é liberdade e coragem. E de facto o maior investimento que quero fazer não traz dinheiro a rodos, mas faz-me sentir viva. Mas não é isso que todos buscamos? Pois então, se for para me perder, que seja apenas na estrada e não no caminho.

 

Veja, na galeria de imagens em baixo, algumas das paisagens que apreciei durante a viagem.
 

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