Perdido na Birmânia: Bagan e Mandalay, Myanmar

Gente que traz o Sol no peito. Acompanhe mais uma etapa da minha aventura pela Birmânia.
Por: Gonçalo Câmara
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Lembro-me da curiosidade de uma partida, do sedentarismo nos primeiros anos de rádio e do regresso à curiosidade, movendo-a.

Gosto da estrada. Seja ela física ou metafórica. Gosto das estradas longas e sinuosas, daquelas onde não conhecemos o seu fim. Levei 12 horas a chegar a Bagan num autocarro nocturno onde a presença da estrada era vincada. Talvez aqui, a metafórica.

Quantas vezes não viajámos parados, a ler, a ouvir, a olhar. E este trajecto deu para tudo isso. Cheguei a Bagan ao mesmo tempo que o Sol e por aqui ficarei um par de dias para explorar os templos e o tempo.

O calor é superior ao de Yangon e convém explorar as redondezas de manhã ou ao fim do dia. Pegar na mota e ir sem rumo estrada fora. Trilhar caminhos que outros desperdiçaram e despertar os sentidos na terra batida.

O tempo quente permite descanso nas horas mais sérias, não havendo fim na viagem. Porque uma viagem pode começar nas palavras de um livro, ou numa tentativa de entendimento desta língua estranha, desconhecida e invulgar.

Embora cada vez mais turística, há uma calma que situa Bagan. Uma paragem importante, como se uma banca de fruta ou água à beira da estrada se tratasse.

Conheci um monge budista que me falou da bondade. Que a bondade não é exclusiva do ser humano mas de todo o ser que sente o Sol. Como a flor, dizia. "Haverá maior gesto de bondade que uma flor que se dá a conhecer?".

Aproveitei para enriquecer a experiência humana e a caminho de Mandalay parei numa vila simpática para conhecer a sua gente. Eram todos artesãos e tinham gosto em que me sentasse com eles para almoçar. Assim o fiz. Ofereceram-me chá e uma tigela de arroz com rebentos de soja estupidamente bem temperados.

O viajante leva em si um desejo insano de mobilidade, de pé na estrada, de se fazer ao caminho. É normal! O corpo do viajante torna-se tenso e desassossegado. Em cima disso, o tempo. E o tempo só é tempo se tivermos a sua consciência. Urge parar de vez em quando. Uma pausa na estrada que mata a sede, ainda que não queiramos estar condenados à tragédia de um só destino. Um intervalo que sossega a pressa.

É normal confundir um viajante com um turista, ainda que se tratem de realidades totalmente diferentes. Díspares, arriscaria. O turista percorre os recantos atrás da atracção. O viajante atrai-se pelo mundano recatado que lhe traz quietude e impermanência. Arrisca nos sabores, nos sítios onde se senta para comer, na homogeneidade do dia-a-dia de um birmanês, querendo fazer parte.

Já em Mandalay andei para o lado uns quilómetros para assistir a este extraordinário fim de dia na Ponte de U-Bein em Amarapura.

A primeira grande barreira numa viagem é a língua, a comunicação, a forma como se relaciona e se pede ou se pergunta.

O Myanmar não é excepção. A minha experiência de viagens pela Ásia já me garantiu o diploma de mestre em linguagem gestual amadora. Depois da China e da Ásia Central, é a vez da Birmânia se mostrar amigável com os gestos. Embora muita gente fale inglês, quando nos afastamos de roteiros turísticos há que começar a preparar as mãos e a capacidade de vencer um Party and Co. na secção da mímica.

Em cima de toda esta responsabilidade afirmo: não é necessária a linguagem para o entendimento. Há na espera um olhar perdido que se compreende. Quem espera, faz mais que isso. Por detrás de alguém que espera, há uma ansiedade que se acentua, uma preocupação que se ocupa ou uma impaciência que corrói.

Dizem "quem espera, sempre alcança". Eu mudaria: quem espera, nota diferença. A espera requer o tempo.

Na viagem treina-se muito a espera. Saber esperar um autocarro, saber esperar a viagem, saber esperar o tempo. E todos somos iguais quando esperamos. Nem a língua nos salvaria.

Onde outros se limitam a estar, há quem contemple e esteja não à espera, mas a esperar.

Veja em baixo a galeria de imagens.

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