Aos meus amigos

Nada é mais prazeroso que uma mesa cheia de amigos, olhando cada um e percebendo o lugar de cada um na nossa vida.
Por: Gonçalo Câmara
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A amizade é das coisas mais valiosas dos nossos dias. Hoje ainda mais. É um caso sério, profundo e fulcral. Menosprezamos a amizade, entendemo-la como garantia quando envolve muito trabalho e requer compromisso. 


Ser um bom amigo leva tempo, precisa dedicação. É algo que está tão misturado com a rotina, que não fazemos ideia quando nem como aconteceu. Como é que de repente ficámos amigos e como é que num ápice nos tornámos indispensáveis. 


A amizade salva. Tratemos dela com o valor que ela merece. São infindáveis a forma como se manifesta, são finitos os amigos. No entanto, tantos tipos: aqueles que agora chegaram, aqueles de anos, aqueles que já lá vão. Os de uma vida, os de uma tarde. Somos todos uma mistura de história, família, noites e amizades. E em todas elas, o tempo que as atravessa. 

Não é quando tudo corre bem que a amizade se revela e se manifesta urgente. É exatamente na situação oposta. A amizade é também desentendimento, ou seja, é na disputa e no atrito entre amigos que nos apercebemos quão importantes somos na vida uns dos outros. Porque da discussão, da falha, fica algo por resolver. Parece que a vida entra em stand-by e que há algo que não está bem. Há um "mal-estar" que se instala quando os amigos não se resolvem, uma respiração ofegante de quem não está em paz. 

É quando estamos nesse limbo que questionamos que raio andamos para aqui a fazer de costas voltadas. Precisamos dos amigos, certas vezes, mais do que a família. O amigo também falha e precisa fazê-lo, para continuar caminho depois. A amizade está para lá de uma conversa, de um café ou de um jantar bem regado. Colocá-la nesse saco seria desrespeitá-la, torná-la banal ou até vulnerável. 

Desde o amigo que nos pergunta pela namorada, pelo cão, pela família, pelo trabalho, ao amigo que está connosco em silêncio. Aquele que nada nos pergunta. O amigo mudo, que apenas está. Esse, tão essencial. 

Aos meus amigos agradeço os dias que se tornam maiores. O tempo que me dedicam e que me dão. As desconversas e o vinho que se acaba. O "ouvi-te hoje" e o "estás mais gordo", o "tinha saudades". Aos meus amigos entrego a minha alegria e a minha saudade imensa. Mas também lhes entrego a tristeza, que é para isso que cá estão. As perguntas e os silêncios. Agradeço-lhes as coisas banais e neles repouso a inquietação. 

Nada é mais prazeroso que uma mesa cheia de amigos, olhando cada um e percebendo o lugar de cada um na nossa vida. É bom ouvir os gritos e as discussões, o "tu não percebes nada de marisco", ou "o que tens no frigorífico?". Dá gosto ouvir uma gargalhada solta no meio de todos eles. É como se algo saísse do lugar na altura certa e se evidenciasse. 

Agora imaginamo-la, mas mal possam, experimentem olhar uma mesa cheia de gente que vos é muito e não dizer nada. Estar ali a olhá-la. Olhar apenas. E depois agradeçam a quem lá está. Da forma que quiserem. A cada um ou no seu todo, baixinho ou com um grito. 

Mas façam-no. O que ali está é porto seguro. 
 

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