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Viagem ao Equador: dos Galápagos à Amazónia
Gonçalo Palma
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Viagem ao Equador: dos Galápagos à Amazónia

Gonçalo Palma

O país é mais conhecido pela bicharada do que pelos humanos. Mas o futuro promissor do futebol equatoriano pode tornar-se numa certeza já em 2022.

As ilhas dos Galápagos, as montanhas dos Andes e a floresta da Amazónia são tentações expedicionárias que dão vontade de ter o carimbo do Equador no passaporte. A mão humana, quando interveio, esculpiu fabulosos monumentos que fazem de Quito ou de Cuenca atrações históricas. Mas o país conhecido pela verticalidade da sua paisagem montanhosa quer dar que falar na horizontalidade do relvado de futebol, no Mundial do Qatar. Será que vai conseguir?  

O futuro sorri-lhes
O Equador conseguiu superiorizar-se e excluir a vizinha Colômbia, no grupo de apuramento sul-americano para o Mundial, conseguindo a sua quarta presença na competição de nações. A seleção é muito jovem. Alguns dos seus jogadores principais participaram nas ótimas campanhas internacionais da seleção de sub-20 em 2019, que lhes valeram o título de campeões da América do Sul e um impressionante 3º lugar no Mundial. A sua principal estrela foi o nosso bem conhecido Gonzalo Plata, o extremo campeão pelo Sporting, hoje ao serviço do Valladolid e titular indiscutível da seleção A.
Mas há mais jogador bem jovens que têm já um papel ativo na formação nacional equatoriana, como o médio Moisés Caicedo, de 20 anos, um dos motores da equipa sensação da Premier League em Inglaterra, o Brighton & Hove Albion, cujo plantel conta com mais compatriotas convocáveis para o Mundial: o colega de meio-campo Jeremy Sarmiento e o lateral-esquerdo Estupiñán
Um dos poucos jogadores da atual seleção acima dos 30 anos é Enner Valencia, sob os comandos de Jorge Jesus no clube turco do Fenerbahçe. Ele é o maior goleador de sempre da equipa principal do seu país.

 

Século XX na penumbra
O maior goleador de sempre da Copa Libertadores é precisamente um equatoriano, Alberto Spencer, com um total de 57 golos, um registo que está longe de ser ameaçado. Com uma carreira ativa entre o final dos anos 50 e o início dos anos 70, o jogador também conhecido como Cabeza Mágica é considerado um dos melhores futebolistas que nunca jogou um Mundial, facto que foi duro tanto para ele, como para o próprio Equador, com uma prestação muito marginal no grupo sul-americano de apuramento ao longo de todo o século passado. E se Alberto Spencer foi o maior goleador da história da Copa Libertadores, isso aconteceu ao serviço de um dos maiores clubes do Uruguai, o Peñarol de Montevideu, pelo qual foi campeão sul-americano por três vezes, a que somou mais duas Taças Intercontinentais.
A seleção equatoriana foi uma nação esquecida que só largou a longa penumbra de ausência em Mundiais no presente século. E, desde então tem sido presença intermitente. A melhor prestação foi em 2006, com a presença na segunda fase, até aos oitavos-de-final, onde só caiu perante um livre direto do inglês Beckham, puxado ao canto direito da baliza que o guardião Cristián Mora, bem esticado, não conseguiu evitar.  
Mas a maior glória internacional do futebol equatoriano pertence à esfera dos clubes, sobretudo ao LDU Quito, que tocou no paraíso quando venceu a Copa Libertadores de 2008. Nos anos seguintes, engrossou o museu com outros troféus continentais importantes: a Copa Sudamericana e duas supertaças sul-americanas, conhecidas como a Recopa Sudamericana

 

Montanhas de ritmos
O pasillo está para o Equador, como a morna está para Cabo Verde ou o fado está para Portugal. É a grande música nacional do país, cantada há 200 anos, desde a Guerra da Independência. Também popular na Colômbia, o pasillo teve como o seu maior cantor Julio Jaramillo (1935-1978), de tal forma que a sua data de nascimento tornou-se o Día del Pasillo Ecuatoriano. Julio Jaramillo conseguiu um reportório de mais de duas mil canções, apesar da sua breve vida, com muita boémia e acusações de machismo.
As suas canções glamourosas de lamento caracterizam o pasillo mas jamais grande parte da música equatoriana, onde predomina a festa e os grandes ritmos. Isso é evidente na faixa da música afro-equatoriana, como a bomba del Chota, ou simplesmente bomba, onde ninguém fica parado, nem mesmo os músicos. Tudo é veloz neste género, desde os dedilhados de guitarra à batucada. Aqui o dançarino tem que ser também um velocista.
Também do lado do território equatoriano das montanhas dos Andes se ouvem as famosas flautas andinas dos indígenas, em especial o declarado instrumento nacional rondador, que requer uma outra dança, dos lábios entre as canas de sopro.

 

Pipocas sem cinema
Como é habitual na América Latina, o milho é omnipresente na cozinha equatoriana e desdobra-se nas mais diversas formas, com maior ou menor subtileza - como poderemos ir lendo nestas linhas mais abaixo. Pratinhos de picocas são servidos comummente como aperitivos em tudo o que é zona de estar, tal como os patacones, que são pedaços de bananas fritas que ladeiam os pratos principais.
Já na zona de ofício propriamente dita, a cozinha, há outros elementos assíduos. Há sempre uma lima pronta a ser esmagada e a largar sabor nos cozinhados e há em permanência uma colher de aji que a qualquer momento pode virar e deitar o seu molho picante (feito de tomate, coentros, cebola e pimenta) nos comes.
A par do Peru, o Equador é outro dos grandes países do ceviche, só que no caso deste país em destaque, o famoso prato marinado é mais escuro, por causa do molho de tomate, com maior recurso também aos camarões, sem esquecer, claro, a corvina (o peixe mais indicado). Agora, imaginem um ceviche em sopa, e talvez estejam perto do encebollado, considerado o prato nacional do Equador, comido sobretudo na zona costeira. É um caldo de peixe, com mandioca, preparado com cebolada, coentros e pingado por limas.
Nas serras, como sempre, as carnes mandam. O hornado é um grande porco assado e a atração volumosa dos mercados, embora servido às pequenas porções e sempre com um molho. Outra grande carnada é o seco de chivo, que é um ensopado de cordeiro mas sem grande caldo, cozinhado por vezes em cerveja (dantes, em cerveja de milho). As próprias peles dos bichos, como dos porcos, são fritas e servidas como petiscos.
A nível de salgados, são abundantes as empanadas de viento: empadas mais ocas (daí a conotação de viento), que contêm normalmente queijo, mas podem ter carnes ou vegetais.
A rica vegetação do Equador permite uma enorme variedade de frutas, algumas delas com que não estamos tão familiarizados como as naranjillas (um cítrico muito usado no país) ou as pitaias (com a sua pele de dragão). É sem grande surpresa que os sumos de frutas são muito habituais, como o caso dos recomendadíssimos sumos de ananás. Como o país é uma fruteira com 256 mil metros quadrados, há criatividade para muita coisa como a bebida colada morada, servida no Dia dos Defuntos em chávena de vidro, e que é uma espécie de salada de frutas fervida num grande panelão, com uma misturada de ervas aromáticas maravilhosas que a natureza dá, a que se junta a farinha de milho, cravo-da-índia, paus de canela e pimenta. Num país que é um grande produtor de cacau, o chocolate quente é uma bebida muito popular e consumida.
Nos domínios das bebidas alcoólicas, a grande bomba é o canelazo, feito de aguardente de cana (puntas) com açúcar (refinado ou não) e água fervida com canela. É muito vendido nas ruas.

 

Tesouro aberto de biodiversidade
O Equador é mais conhecido por um grupo de ilhas do Oceano Pacífico que está a mais de 900 quilómetros da costa continental do Equador – a duas horas de voo direto a partir da capital equatoriana Quito. Falamos, evidentemente, do arquipélago de Galápagos, que se trata de um tesouro quase imaculado de biodiversidade única, que serviu de inspiração para uma das obras mais fundamentais para a ciência, "A Origem das Espécies", de Charles Darwin. Quase dois séculos depois das estadas do biólogo inglês nas ilhas, este paraíso subaquático e à superfície de deslumbrante fauna já não está tão imune aos disparates humanos, por causa da crise climática e da subida de temperatura das águas que põe em causa a subsistência destes ecossistemas. Os Galápagos (21 ilhas ao todo) são em simultâneo um jardim zoológico e um oceanário sem vedação e sem vidros, que nos mostra a olho nu tartarugas, iguanas, albatrozes, caranguejos, leões marinhos, flamingos, tubarões-baleia e tantas outras espécies raras e lindas.
Há também bicharada diversa no continente, mais propriamente na floresta amazónica, que apanha a zona leste do país. Golfinhos rosados do rio Amazonas, anacondas, piranhas ou jaguares são algumas das milhares de espécies que nos fazem lembrar que a Terra é um planeta maravilhoso, apesar de alguma humanidade mais letal. 
As numerosas reservas naturais do Equador são uma imensidão de praias, lagos e cascatas com os mais diversos cenários. Os muitos vulcões (grande parte deles inativos) são outra preciosidade para a vista, com consequências positivas para a salubridade e para o bem-estar como as muitas piscinas de águas termais, a milhares de metros de altura, como em Papallacta ou em Baños.
Um dos mais fulgurantes é o inativo vulcão Chimborazo, que é possível de ser visto a partir das lindíssimas e antigas carruagens do Tren de Hielo I, um dos fascinantes trajetos ferroviários que o Equador proporciona. Como em muitas destas viagens de comboio, há ranchos folclóricos nas estações e lamas juntos aos carris. Mas a mais fascinante viagem ferroviária talvez seja a da linha Nariz del Diablo, a serpentear vertiginosamente pelas montanhas dos Andes. A linha é um dos maiores desafios ferroviários à humanidade que custou milhares de vidas à mão-de-obra - que coloca as carruagens num permanente precipício e numa vista aérea com centenas de metros para baixo. Em tempos passados, os passageiros chegavam a viajar em cima das carruagens, como na Índia (mas hoje essa aventura suicida é proibida).
Mas há mais mão humana. Quito foi uma das primeiras cidades a ser declarada como Património Histórico para a UNESCO, com um centro antigo com prédios barrocos e a maior basílica neo-gótica das Américas: a Basílica del Voto Nacional. Outra cidade reconhecida pela arquitetura colonial e que é também um pasmo para os turistas é Cuenca
O Equador é também reconhecido pelas feiras de artesanato, com muito material de couro, têxteis (mantas, tapetes, ponchos), ou os célebres chapéus de palha, o berço dos chamados chapéus de Panamá.
Na senda da vizinha Colômbia, também hoje o Equador tem dado ao mundo ciclismo de topo na montanha, representado por Richard Carapaz, talvez a maior personalidade equatoriana lá fora, campeão olímpico em 2020 na prova de estrada, vencedor do Giro d'Italia de 2019 e o campeão da montanha na Vuelta a España deste ano. Mas há outras personalidades desportivas que estão na história como o atleta Jefferson Pérez, ainda ativo, que tem sido um papa-medalhas: tornou-se campeão olímpico de 20 quilómetros marcha em 1996, especialidade em que se tornou tricampeão do mundo, tricampeão panamericano e campeão sul-americano. Na sua longa vida de alta competição, regressou ao pódio olímpico 12 anos depois do ouro, para a medalha de prata na edição de 2008. Também o ténis equatoriano costuma ter bom nível internacional: Andrés Gómez chegou a tocar no paraíso quando venceu o Roland Garros de 1990.

 

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