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Silvia Mendes
18 setembro 2020, 10:15
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Samuel Úria: "a palavra terá sempre um alcance maior que nós"

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Joana Linda
Silvia Mendes
18 setembro 2020, 10:15
O músico e compositor de Tondela está de volta aos álbuns. "Canções do Pós-Guerra" já está ao alcance de todos e serviu de pretexto para uma boa conversa.

 

Samuel Úria editou hoje "Canções do Pós-Guerra, disco bem mais belo que bélico e que chega em boa hora.

Revelando-se afinal mais profético que a intenção inicial do músico de Tondela, culpa da alteração repentina das prioridades do mundo, "Canções do Pós-Guerra" segue o método de trabalho de "Marcha Atroz", o EP que Samuel Úria editou em 2018. Além de um dueto com a cantora Catarina Falcão no tema 'Cedo', há outros amigos do músico metidos ao barulho. Miguel Araújo ajudou no tema 'As Traves' e a faixa de abertura, 'Aos Pós', teve uma mão-cheia de vozes amigas nos coros. Miguel Ferreira, que tem trabalhado com Úria nos últimos registos, voltou a acomodar-se na cadeira de produtor.

"Canções do Pós-Guerra", que já está disponível em formato CD, vinil e nas plataformas digitais, vai ganhar vida no palco muito em breve. Tão breve que o primeiro concerto é já amanhã. Samuel Úria vai apresentar o disco no espaço Cubo Mágico, em Viseu. 

A 6 de outubro, o músico vai subir ao palco do Teatro Tivoli, em Lisboa. Um dia depois, dia 7, Samuel Úria vai tocar na Casa da Música, no Porto. No dia 24 de outubro, o palco será o do Teatro Diogo Bernardes, em Ponte de Lima.
 

Demoraste quatro anos a voltar aos álbuns, apesar de teres lançado um EP pelo meio. Foi o tempo certo para juntar as peças para a criação de um conceito para o disco?

Sim, embora, em abono da verdade, tenha de admitir que não estive quatro anos a recolher coisas para fazer este disco. Aliás, estive a recolher informações e vivências mas concentrei a escrita num período de tempo relativamente curto. Gosto de consagrar períodos para escrever. Depois de lançar um disco não ando paulatinamente a escrever canções. Isso não significa que não estivesse a fazer outras coisas. Estive a trabalhar, a escrever para outros sítios e lancei o EP. Este disco aparece quatro anos depois, mas a parte de "pegar na massa", de escrever canções do princípio ao fim durou três, quatro meses de 2019. O disco está mais concentrado num período relativamente recente mas, como entretanto o mundo mudou significativamente, acabou por ficar datado.

Antes de falarmos desse twist mundial, como é que foste construindo estas canções?

A ignição para este disco está relacionada com o EP que lancei em 2018. Gostei muito do processo e da forma como as coisas foram feitas. A diferença entre os discos anteriores foi o facto de ter ido para o estúdio com poucas coisas idealizadas em torno das músicas. Tinha apenas o esqueleto das canções. Estavam gravadas com voz e guitarra, tinham princípio e fim, mas os instrumentais e os arranjos não estavam planeados. Na altura, eu e o produtor [Miguel Ferreira] pegámos nesse esqueleto e questionámo-nos sobre o que seria necessário para que as letras não ficassem subjugadas pelo manto de arranjos. Queríamos que as letras pudessem respirar. Trabalhámos com o que tínhamos à nossa disposição, num estúdio mais pequeno. Foi assim que o EP foi construído. Sem grandes megalomanias. Sem estarmos a pensar nos estilos musicais que se estavam a fazer. Esse lado intemporal, de ser um disco extraído do seu tempo, agradou-me. Quis que este disco, o "Canções do Pós-Guerra", partisse desta ideia limpa. Da ideia de que as letras e as melodias é que ditam o resto. Ditam todo o invólucro, o mostruário com que as canções vão aparecer. O disco foi construído em cima dessa ideia. Além disso, também há um conceito quase literário, resultante de eu andar a ler alguns autores conotados com o pós-guerra, nomeadamente com o da II Guerra Mundial. Acho que tem a ver com a ambivalência semântica que o pós-guerra pode ter. Pode ter tudo. Todos os períodos são de pós-guerra. Tudo pode ser guerra. Tudo pode ser conflito. Pensei que se pudesse ter um núcleo de canções que consagrasse essa temática ambivalente, ficaria satisfeito. O disco parte desses dois conceitos. 
 

Tu e o Miguel Ferreira têm aquela dinâmica cúmplice em que, criativamente falando, adivinham os pensamentos um do outro?

Sim. O "Carga de Ombros", o disco que fiz antes deste, foi o primeiro álbum em que trabalhei com o Miguel. Convidei-o porque ele tinha referências musicais muito diferentes das minhas. Queria ter uma voz que contrariasse a minha. Pensei que, dessa quase tensão entre referências que não são absolutamente comuns, pudesse nascer algo que seria incomum na minha discografia. Acho que isso acabou por acontecer. Por outro lado, ao trabalharmos juntos, ficámos ainda mais próximos como amigos. Isso fez com que percebêssemos que afinal temos muitas coisas em comum, inclusivamente no que toca aos gostos e universos musicais. O que pautou este último disco foi o facto de o Miguel ter tocado muitas vezes comigo. Demos muitos concertos juntos. A experiência do Miguel na banda fez com que ele começasse a antecipar a minha linguagem musical e a prever o que é que eu queria em termos sonoros quando lhe dizia determinadas palavras. Serviu como um processo de crescimento para ambos. Ajudou-me a conseguir depositar muita confiança em alguém que está a trabalhar comigo e o Miguel percebeu que, pelo menos para mim, as letras têm de ter tanta ou mais importância que a música. O Miguel nunca tinha dado tanta importância ao entendimento das letras. Para ele o trabalho musical cingia-se ao instrumental, ao trabalho de arranjos e ao universo estético. Isso ajudou-o a acabar as minhas frases antes de eu as dizer.

A imagem de um pós-guerra é uma imagem de sobrevivência entre os escombros, talvez aberta a uma ideia de reconstrução. Que guerras é que estão neste disco?
 
O que estás a dizer faz sentido. Quer estejamos a falar de conflitos armados ou de guerras interiores, o facto de ter dado este título ao disco pode abordar qualquer tema na perspetiva do sobrevivente, de alguém que se está a reconstruir ou que está a fazer um rescaldo sobre o que levou ao conflito que se antecedeu. E também posso transmutar-me. Posso estar a falar de questões clássicas de amor mas contá-las da perspetiva de alguém que se quer reconstruir. Alguém que está a pegar nos escombros para voltar a erigir a casa. Por norma, gosto de ter conceitos-chave porque permitem que limite o espectro de ação. Consigo concentrar-me mais. Mas, paradoxalmente, também gosto de ter conceitos abertos porque isso permite que possa extravasar poeticamente. Gosto de estar a falar de coisas usando imaginários que não têm propriamente a ver com essas coisas. A ideia de um pós-guerra faculta-me esse afunilar mas, por outro lado, dá para virar o funil ao contrário. Uma palavra que tenha a ver com guerra pode levar-me a escrever coisas que não têm nada a ver com guerras. É nesse paradoxo que se criam as tensões e é dessas tensões que brota a criatividade.
 


O press release que apresenta o "Canções do Pós-Guerra" começa por falar no marco dos 40, sendo que tu tens 41, e numa ideia de ser uma altura propícia à autoanálise. Quão profundo foi esse olhar para dentro nesta coleção de canções?  E em que medida é que a forma de olhar para dentro muda depois dos quarenta?

  
É curioso. Quem escreveu o press release foi o Rui Portulez. Nós não falámos sobre essa questão, mas, de facto, ele identificou isso nas canções. Acho que identificou bem, ao ponto de ter-lhe dado razão em coisas sobre as quais eu ainda não tinha refletido. Apesar de não estar a sentir o peso da idade, no sentido de me sentir caquético ou de estar a simular crises de meia-idade só porque fiz 40, não sou impermeável a essa mudança de chip. Talvez porque os 40 são um número redondo, quase que representam uma efeméride. Acho que escrevi estas canções de uma perspetiva adulta, se é que posso pôr as coisas desta forma. Não falo de um adulto com excesso de formalismo ou seriedade, mas de um adulto que tem coisas para enfrentar. Os adultos têm de resolver problemas. Os meus discos anteriores também tinham presente a resolução de conflitos, mas havia uma aura mais saudosista e nostálgica. Havia uma aura de apego que era mais síndroma de Peter Pan do que outra coisa qualquer. Estava mais agarrado ao passado por querer que os problemas de adultos estivessem distantes. Agora tenho de arregaçar as mangas porque a idade não me deixa estar tão ligado ao passado ou a um embelezamento desse passado. Não havendo uma mudança formal, os 40 obrigam-me, informal e oficiosamente, a ter uma perspetiva de adulto que eu recusava até aqui. 

O "Canções do Pós-Guerra" também é descrito como sendo o teu disco mais direto...

É possível que seja. Houve alturas em que quis ter menos rodeios na escrita. Assumi isso numa espécie de press release que escrevi sobre o segundo single do disco, o 'Muro'. Estava a sentir-me prejudicado em algumas temáticas por querer esconder-me em demasia. Muitas vezes, quando a escrita é labiríntica, não se encontra a saída nem sequer o ponto de partida. Há discursos que eu queria que fossem mais diretos. Acho que foi por isso que me tornei mais literal. Mas isso não aconteceu sempre. Também me escondi o suficiente neste disco. Num ou noutro assunto, sobretudo em declarações de intenções, tentei ser um bocadinho mais direto. Mesmo que neste disco a linguagem poética não seja tão literal não descarrila tanto como acontecia noutros tempos. Apesar de não usar uma linguagem absurdamente direta, não quis que as pessoas andassem enganadas a ouvir-me. Não queria que chegassem a conclusões que não as que eu queria. De repente, descobri que há assuntos, sejam eles do foro íntimo ou social, que precisam de clareza nas intenções.  
 

 

Mas sentes-te mais vulnerável ao fazer isso? A canção 'O Muro' parece-me bastante confessional. O tema termina com a frase: "e saber complicar é uma prova de amor, afinal". Sentes-te mais vulnerável ao estares mais exposto?

Acho que tem a ver com o ato de assumir essa vulnerabilidade. O que acontecia no passado é que eu queria expor-me muito. Queria revelar muitas coisas que estavam intimamente ocultas. Até histórias e experiências. Por outro lado, como havia esse excesso de nudez, acabava por tapá-la por outros meios. Continuava a haver muito de mim, mas também havia subterfúgios suficientes para que a minha sobrepresença estivesse de alguma maneira oculta. Quem quisesse chegar lá tinha de andar com uma catana a cortar as sebes. No tema 'O Muro' não só assumi a maneira enviesada como me revelava no passado, como assumi que, se é uma declaração de amor, mais vale dar a mão à palmatória e o corpo à vulnerabilidade. Se calhar, acabo o tema de uma forma covarde, a tentar sair airosamente do passado. Apesar de ter complicado mais nessa altura, o amor e as questões de amor também estavam presentes.
 



Em relação ao tema 'Aos Pós', canção que abre o disco, sinto que cantas sobre uma espécie de niilismo circular. Escreves sobre uma sociedade em repetição, sem foco. É assim que a observas?

Sim. Acho que o caminho ideológico recicla-se, embora ache que se esteja a extremar cada vez mais. Pode não ser assim tão óbvio, se pensarmos que hoje em dia estamos muito assustados com a ascensão da extrema-direita mas, pelo menos, não estamos com receio que haja um extermínio de judeus ou o que quer que seja. Estamos a extremar, mas creio que as consequências não são tão explosivamente perigosas e chocantes como há 80 anos. Existe um reciclar ideológico e uma preocupação cada vez maior com nomenclaturas que redundam muitas vezes em nada. Tentamos explicar as nossas grandes conquistas. Somos pós isto ou aquilo. Estamos a renegar esse passado ou a adotar esse passado mas somos pós tanta coisa que muitas vezes acabamos por nos esquecer que não somos muito mais do que pó. Nesse sentido, a canção é niilista mas também critica o niilismo que não se apercebe que o é. Uma moral que é amoral, não imoral. O tema anda um bocado nessa roda-viva de coisas que são mais cíclicas do que se dignam a admitir que são. 

 


 

 

Estas canções foram feitas antes da Covid-19, antes deste desvio que o mundo foi obrigado a fazer...

Sim, fiz tudo antes. 

Houve pessoas que compararam esta pandemia a uma guerra. Reconheces alguma analogia entre o disco e o que estamos a viver, apesar de ainda não estarmos a experienciar o pós desta crise de saúde pública?

Sim. Não sei se feliz ou infelizmente. Estivemos todos de alguma forma entrincheirados. Até me lembro da primeira grande comunicação do Presidente da República. [O Marcelo Rebelo de Sousa] falou mesmo em guerra. Acho que estava a tentar encarnar uma nobreza churchilliana na maneira como tentou regimentar as pessoas para estas dificuldades. Nesse sentido, acho que é um disco mais atual do que aquilo que eu queria. Mais profético do que a forma como o entendia quando o escrevi. Não esperava isto. Queria fazer um disco mais recolhido e acabei por ter a felicidade ou a infelicidade de o lançar depois de um período em que as pessoas também estiveram recolhidas por força das obrigações. O meu recolhimento era voluntário mas vai ecoar para pessoas que estiveram em recolhimento involuntário. Não sei até que ponto pode jogar a favor ou contra. Se calhar, vai haver mais gente a rever-se nas letras, mas acho que vai oferecer pouco escape às pessoas. Gosto quando a arte serve como escape. Se este disco for tido como um objeto artístico, não vai ser tido como um objeto artístico de escape.

Tu és um homem de fé. Em momentos de crise evidente e planetária, é mais fácil ter crises de fé ou fortalecê-la?

Acho que não há propriamente um abalo na fé. Isto pode parecer algo cínico de se dizer, sendo eu uma pessoa de fé, mas, ao contrário do que a palavra fé pode dar a entender, a minha fé não está intimamente ligada à esperança de que as coisas melhorem significativamente no mundo. A fé, como eu a entendo, pode assentar na crença de que as pessoas podem melhorar, mas isso não significa que esteja confiante que as pessoas vão melhorar ou que as pessoas em massa vão construir um mundo melhor. A fé obriga-me a fazer a minha parte. A parte de ser melhor e de apregoar que as pessoas também podem melhorar. Não tenho propriamente de estar otimista em relação a um movimento massificado de melhoramentos. O que aconteceu não abalou a minha fé porque também não me surpreendeu. Claro que tudo é uma surpresa neste momento, mas não é surpreendente que os valores tenham sido abalados da maneira que foram. Não houve uma surpresa sobrenatural sobre os desígnios do mundo. Tenho a fé nas minhas lentes quando observo os fenómenos do mundo, mas não necessariamente quando observo estes fenómenos. Não me suscitaram uma reflexão especial sobre o entendimento que tenho em matéria de questões de fé ou religiosas. O que estou a dizer pode evidenciar uma crise de fé, mas não me sinto menos crente. Não me sinto menos pessimista ou otimista do que era antes.
 



Inabalável é a tua relação com a palavra. Têm quase uma relação de troca de favores. Tu dás algo à palavra e a palavra dá-te algo a ti. Qual é que pode ser o maior alcance da palavra?

Isto talvez esteja relacionado com a fé porque acredito que a palavra está na génese de tudo, embora as pessoas sem fé também possam acreditar nisto. A pré-história passou a história por ação da palavra. A palavra terá sempre um alcance maior que nós próprios. Mesmo as nossas limitações físicas são transcendidas pelas palavras. Apesar de nem toda a gente estar ciente disso, há pessoas que estão perigosamente conscientes desse facto e usam a palavra para terem um alcance maior que as suas limitações. A palavra tem o alcance de ser transformadora para o bem e para o mal. É um alcance infinito. Uma palavra pode não conseguir pôr-nos em Marte mas pode escrever mentiras ou verdades sobre como seria a nossa vida em Marte. Estou a divagar um bocado porque as palavras também permitem essa divagação. (risos) Sou um escravo das palavras, tenho reverência pelas palavras. Acho que as palavras são libertadoras. A palavra dá-me muito e eu tento que seja recíproco. Tento dar muito às palavras. Digo isto de uma forma humilde. Não quero dizer com isto que esteja a revolucionar o que quer que seja quando escrevo ou quando falo. O meu dar às palavras é na relação que tenho com elas. São o ar. São a fotossíntese. Recebo o sol e transformo no oxigénio possível para que eu próprio possa respirar. Se puder ajudar a que as pessoas tenham o ar um pouco menos rarefeito tanto melhor.
 


Agora o tema 'Guerra e Paz'. Fiquei aqui pendurada em algumas frases como "voltei a ser o velho menino e jurei não voltar a mim" ou quando te interrogas quando cantas: "fechei a porta ao perdão?". Quando ouvi este tema, lembrei-me logo do universo do Leonard Cohen. Fala-me um pouco deste tema...

O universo coheniano faz todo o sentido nesta canção. A referência que uso no 'Guerra e Paz' é uma referência que o Cohen usa dezenas de vezes nas canções. Quando estava a pensar nessa canção já havia o conceito de pós-guerra para o álbum. Como te disse, andava a ler vários autores da dita literatura do pós-guerra mas acabei por aperceber-me que a literatura e a poesia do pós-guerra com a qual afinal tinha mais contacto não era necessariamente a do pós-guerra mais recente mas sim a de guerras milenares. Os salmos do rei israelita David são um exemplo. No meio desses salmos davidianos percebi que o tema mais intenso que ele abordava era menos bélico e mais relacionado com questões de culpa ou de perdão. Esta canção assenta nas grandes questões, nos grandes "ais" e nos pedidos de perdão. Muito provavelmente escrevi-a a pensar se algumas coisas que fiz na minha vida merecem ou não perdão, mesmo que sejam ostensivamente rebeldes contra a própria noção de quem é que me pode dar o perdão. Fui a esses salmos, dos quais o Cohen também bebeu inúmeras vezes. O facto de teres reconhecido isso deixa-me muito contente. Basta ir beber à mesma fonte que o Cohen para se perceber que vem do mesmo sítio. Isso deixa-me muito feliz.

Por falar em grandes da música e da palavra, recentemente tiveste oportunidade de trabalhar com o Sérgio Godinho. Deste uma ajuda no tema 'O Novo Normal'. Como é que foi a experiência?

Para começar, foi divertido. Sou amigo do Sérgio há alguns anos. Estamos na mesma agência, temos o mesmo manager. Temos convivido bastante nos últimos anos. Tem sido um prazer conhecer o Sérgio sem ser de uma forma mais reverente. O que aconteceu foi que o Sérgio tinha esboçado a canção, mas havia coisas que precisavam de ser desamarradas. Eu fui um nome lançado para a mesa. Tive muito prazer em ajudar. Pude trabalhar não só com o Sérgio mas também com o Nuno Rafael com quem trabalhei várias vezes nos últimos anos. Neste caso, foi mesmo juntar o útil ao agradável. A expressão assenta que nem uma luva. Acho que dei uma contribuição útil na forma como puxei por alguma parte melódica, nos arranjos de vozes, etc. Não vou dizer que esses são os meus fortes, em termos musicais, mas são coisas nas quais gosto de trabalhar, diria eu, até de forma lúdica. Foi uma experiência muito fixe. Espero que se repita. Espero que o Sérgio faça mais esboços inacabados para que eu possa pegar. (risos) 

Para o final, guardei os teus concertos de apresentação do disco, mas antes de falar dos teus quero saber se já foste a algum concerto neste tal novo normal?

Quero muito ir ver o concerto do Sérgio Godinho no dia 21 de setembro [no Teatro Maria Matos, em Lisboa], mas já fui ver o concerto dos Clã em Lisboa. Foi o primeiro concerto em que fui mascarado. (risos) 

Achas que vai ser sempre estranho ou as pessoas vão se adaptar aos poucos? 

Foi estranho, mas era um concerto que eu queria muito ver. Foi o lançamento de um disco ["Véspera"] que eu gosto muito. As canções, a presença em palco dos Clã e a força da natureza que é a Manuela [Azevedo] elevou-nos para lá dessas limitações e das novas regras. As máscaras e as regras de segurança pouco interferem com o rescaldo do concerto. Na medida do possível, se a música ao vivo puder prevalecer, acho que vai prevalecer para lá das limitações.  
     
O que é que estás a preparar para os teus concertos? 

Já toquei algumas canções do disco ao vivo, mas só vou tocar o grosso do álbum depois do lançamento. Provavelmente até irei tocar o disco todo. Aí vai mesmo haver uma reformulação daquilo que andamos a fazer enquanto banda. Acho que há um entusiasmo muito grande pelo facto de termos estado tanto tempo sem o trabalho direto de tocar para pessoas que estão fisicamente à nossa frente. Há esse entusiasmo. Também pode haver uma revitalização que parte de uma coisa negativa que é a incerteza. Acho que pode haver uma vitalidade peculiar por não sabermos quando é que vamos poder tocar outra vez. Isso será um incremento positivo. Pelo menos, será essa a atitude com que vamos encarar estes concertos. Podem ser os últimos. Como não sabemos quando é que vamos tocar outra vez vamos dar tudo. O cenário atual é negativo, mas a atitude em palco vai ser muito positiva. 

     

 
 

 

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