Gonçalo Palma
27 novembro 2020, 00:42
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10 momentos de d10s Maradona

ANSA/EPA/LUSA
Somou milagres: fez do Nápoles um grande de Itália e levou a Argentina para o segundo título mundial.
Raramente, um futebolista teve atributos tão próximos de um super-herói como Maradona. Se o Super-Homem evita derrocadas de pontes, Maradona conseguiu carregar com equipas medianas até à glória máxima. Fez de uma equipa argentina razoavelmente competente, como era a de 1986, uma seleção campeã do mundo. E transformou o outrora aflito Nápoles num grande de Itália, inclinando o mapa futebolístico do país transalpino para o sul, quebrando o domínio absoluto dos clubes do norte. 
 
Maradona faz parte da elite dos melhores de sempre. Di Stefano encaixou num grande Real Madrid; Cruyff era uma peça importante da Laranja Mecânica e de um grande Ajax; Pelé foi contemporâneo de duas grandes colheitas da selecção brasileira (ao ponto de ter sido campeão do mundo em 1962 sem praticamente ter jogado); Beckenbauer tinha à sua frente um grande grupo de jogadores na seleção alemã e no Bayern; Messi e Cristiano Ronaldo estiveram sempre em plantéis luxuosos; e até mesmo Eusébio se estreou num Benfica que já tinha sido campeão europeu sem ele. Maradona quase que só teve ele próprio na caminhada para o sucesso. 
 
Antes de se perder fora dos relvados, reduziu táticas a planos insignificantes com a sua magia imprevisível. A sua figura decora hoje os murais de Buenos Aires e de Nápoles. Foi alviceleste pela Argentina, foi azul celeste pelo Nápoles, foi o toque dos céus nos campos de futebol. Graças a ele, o desporto-rei foi um lindo desenho a pincel numa tela verde.   
 
  
Agosto e setembro de 1979 
O Mundial de Juniores do Japão foi para Maradona um ensaio para a glória máxima do México 86. Foi o melhor jogador do torneio, experimentou marcar golos para diferentes gostos e foi insaciável nas assistências. Tal como iria acontecer no México 86, foi ele o capitão a levantar o troféu. A final contra a poderosa União Soviética foi o prenúncio da sua vida de futebolista: fintas que desnorteiam defesas, um massacre de faltas sobre as suas pernas e um livre direto que, ao seu estilo, foi rematado com a facilidade com se marca um penalti. É mais uma ilusão do mágico da bola: fazer parecer fácil o que era difícil. 
  

10 de abril de 1981 
Com a camisola do Boca Juniors, defrontou o eterno rival River Plate e levou a Bombonera à loucura, com uma recuperação de bola e um raide veloz que sobrevive a uma carga faltosa e segue em velocidade de jato quase um campo inteiro, numa sucessão de fintas, até que os seus companheiros faturem. Logo a seguir, ocorre o seu primeiro golo no Superclásico, contornando o guarda-redes com imensa categoria e não se encadeando com os flashes dos fotógrafos. Do lado do River Plate, estavam jogadores históricos como Passarella, Kempes ou o seu companheiro dos juniores, Ramón Díaz. 
  

 
18 de Junho de 1982 
O guardião sportinguista Ferenc Mészáros foi o primeiro senhor da baliza a ter que ir buscar uma bola ao fundo das redes vinda do corpo de Maradona na história de um Mundial. A Argentina estava pressionada a vencer a Hungria, caso quisesse manter as hipóteses de revalidar o título de campeão mundial conquistado em 1978. O nº10 inspirou-se com uma assistência, um golo de raça e outro golo de um ângulo impossível... exceto para Maradona. Mészáros foi a primeira vítima de Maradona num Mundial, mas outros guardiões iriam ter o mesmo sabor amargo de impotência perante o génio. 
 
 
 
22 de Junho de 1986 
Antes do jogo dos quartos-de-final contra Inglaterra, Maradona já vinha sendo o melhor jogador do México 86, com quatro partidas em que foi sempre o melhor jogador em campo. Contra o vencedor da guerra das ilhas Falkland/Maldivas, o todo-o-terreno El Pibe estava ainda mais endiabrado, destroçando a tática do selecionador inglês Bobby Robson e deixando a defesa da Velha Albion com a cabeça em água. Depois, teve os seus quatro minutos de maior fama. Fez a malandrice da “mão de Deus”, iludindo uma cabeçada que enganou o árbitro Ali Bin Nasser. Não fez um pedido de desculpas formal e em vez disso mostrou o melhor que tinha para dar ao desporto-rei, num sprint com nota artística de 10, o número da sua camisola, tendo fintado sete jogadores ingleses em 10 segundos, até selar o golo, o segundo da partida. As Falkland continuariam como domínio britânico, mas as meias-finais eram para a Argentina e a eternidade para Maradona.    
 

 
 
25 de junho de 1986 
Próxima vítima do grande Mundial de Maradona: a fortíssima Bélgica. Quando começaram a faltar palavras no léxico para descrever o talento do argentino, sobraram dribles mágicos. Nas meias-finais do México 86, Maradona estava no gozo pleno do jogo, fazendo o que queria com aquele pé esquerdo, desdobrando-se entre passes teleguiados de quem tem quatro olhos e desmarcações com a astúcia de uma raposa. Depois, tal como contra Inglaterra, apareceu no início da segunda parte para mostrar o seu melhor, com outro bis: um toque subtil e de classe no primeiro golo, e depois um maravilhoso tango que ultrapassou quatro belgas em três diafragmas até enviar o esférico na baliza de Pfaff com a sua arte de canhoto. Dizem que Deus está em todo o lado, d10s Maradona também.   
 

    
 
29 de junho de 1986 
Maradona concretiza o sonho de criança e que tanto mereceu: ser campeão do mundo de futebol. Às cavalitas dos seus companheiros, passeou-se nas alturas com o ceptro mais valioso do desporto-rei, depois de uma vitória emocionante contra a Alemanha Ocidental por 3-2. O golo decisivo de Burruchaga foi uma via aberta para a grande área que Maradona inventou, com mais uma assistência. A coroação de glória deu-se numa grandes catedrais do futebol: o Estádio Azteca, na cidade do México.  
 

 
 
29 de março de 1987 
Era o jogo do ano em Itália, quando o campeonato da Série A era o mais competitivo do mundo. Não era só um duelo entre sul e norte, entre o Nápoles e a campeã Juventus. Era um confronto entre os dois melhores jogadores do mundo: o napolitano Maradona vs. o bianconero Platini. O nº10 francês ia servindo classe por todo o terreno num San Paoli à pinha e entusiasmado. Mas do lado dos anfitriões, o nº10 celeste mostrou os seus atributos de d10s quando fez sobrevoar a regra e esquadro uma bola de fora de área como uma bomba atómica na defesa da Juve, lançando a confusão junto à baliza e o golo incontornável e decisivo de Romano a meio da segunda parte. Era a vitória que era necessária para o Nápoles caminhar para o primeiro título de campeão da sua história. Um ano depois de Maradona se sagrar campeão do mundo, ganhava em 1987 o campeonato interno mais difícil do planeta, superiorizando-se a colossos como a Juventus, em 2º, e o Inter de Milão, em 3º, e mudando a história. O Nápoles deixava de ser o clube dos pobres coitados do sul.  
 

 
17 de maio de 1989 
Se não tiverem paciência para verem o todo vídeo em baixo, podem ir diretamente para o 5:02 e apreciar o que é um belo contra-ataque de equipa e a maravilha que é o pé esquerdo de Maradona, que serve de bandeja dourada o ponta-de-lança brasileiro Careca para o golo final do Nápoles. Depois de ter dado o primeiro de título de campeão italiano ao clube celeste em 1987, Maradona fez outro feito inédito dando ao Nápoles a glória de vencer uma grande competição europeia, no caso a dificílima Taça UEFA. Onde está Maradona, estão sarilhos para os adversários. Antes do terceiro golo diante do forte anfitrião Estugarda (onde ainda jogava o avançado-centro alemão Jürgen Klinsmann), o nº10 iniciou um contra-ataque em sociedade latino-americana com Alemão e Careca para o primeiro tento, e depois serviu de cabeça Ferrara para o segundo golo. Diziam que Maradona estava em má forma. Isto é Maradona em má forma, o homem que municia três golos numa só partida.     
 
 

 
24 de junho de 1990 
É conhecida a rivalidade entre o Brasil e a Argentina. Naquela tarde, em Turim, o equilíbrio era uma palavra que não existia. No jogo dos oitavos-de-final do Mundial, parecia que o Brasil ia dar uma tareia. As bolas aos postes de Goycochea repetiam-se, a Argentina estava reduzida à pequena dimensão de uma equipa assustada que se limitava a defender e a adiar o golo do escrete. Mas eis que aparece o super-herói vestido com a sua camisola alviceleste nº10, e a dez minutos do fim pega na bola, finta dois brasileiros no círculo do meio-campo, acelera, atrai para si quase todos os restantes adversários e deixa à solta na grande área o talentoso avançado Caniggia a quem entrega a bola numa reta perfeita. Caniggia e a Argentina deixavam para trás o guardião Taffarel e o Brasil. Maradona conseguiu o milagre de d10s de levar uma equipa mediana como aquela Argentina até à final. 
 

 
 
21 de junho de 1994 
Este é o último grande momento internacional de Maradona, antes do controlo positivo de doping que o afastaria deste Mundial nos Estados Unidos. Nesta goleada de 4-0 contra a Grécia, houve um grande golo do astro, com a bola bem preparada para ser rematada para aquele canto da baliza indefensável e um festejo em cima da câmara de filmar do nº10. Mas desta vez, ao contrário do que muitas vezes aconteceu, há um show coletivo de toda a equipa. Mesmo que com Maradona em boa forma, havia um outro jogador a sobressair, o artilheiro Batistuta, num jogo que pareceu também uma passagem de testemunho.  
 

   
 

Por ocasião do seu 60º aniversário, lembrámos também vários momentos da sua vida. Podem ler neste link esse artigo.