Redação
09 junho 2021, 15:43
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Nuno Gonçalves (The Gift) e o Euro: "desde 2004 que vejo todos os jogos da selecção no estádio"

DR Facebook Oficial The Gift
Para o músico, os "três primeiros pontos têm que ser conquistados" contra a Hungria, para passarmos o "grupo da morte", onde estão França e Alemanha.

O compositor dos Gift, Nuno Gonçalves (à esquerda na foto), é também conhecido como um entusiasta de futebol. Assume o seu sportinguismo no programa da RTP, Trio d' Ataque, mas a sua paixão pela seleção portuguesa parece estar acima. Dos 38 jogos que a equipa das quinas disputou nas fases finais, Nuno Gonçalves acompanhou ao vivo 37. "Desde 2004 que todos os jogos que a seleção fez em europeus e em mundiais, fui sempre ao estádio, exceto a final contra a Grécia [disputada curiosamente em Lisboa]. Estive na África do Sul, na Alemanha, na França, na Suíça, no Brasil, na Rússia. Estive nas derrotas todas: com o Uruguai [no Mundial de 2018], com a Espanha nos penaltis [no Europeu de 2012] e no golo em fora-de-jogo do David Villa [no Mundial de 2010]?, diz-nos o teclista dos Gift.  


  
Portanto, à pergunta "onde estavas no golo do Éder?", a resposta de Nuno Gonçalves não é num café ou numa casa de amigos. "Estava atrás da baliza, a sofrer muito no Stade de France. Não estava a acreditar no que estava a acontecer. Possivelmente, a par do nascimento da minha filha, foi o dia mais feliz da minha vida. Foi uma explosão de portugalidade que nunca tinha vivido. Ao meu lado, estava um casal de imigrantes portugueses a viver em França há largas décadas. Depois do golo do Éder, o senhor estava a chorar compulsivamente e a dizer à mulher: ?é desta que vamos ganhar?. E a senhora dizia: ?lembras-te que também estávamos no estádio quando o Jordão fez o [segundo] golo e eles ainda empataram e ganharam o jogo? na célebre meia-final do Euro ?84. Foi precisamente a 23 de junho, o mesmo dia em que Portugal vai jogar contra França. É uma efeméride. Vamos ver se corre melhor desta vez. Ainda consegui viver a alegria extrema do golo e logo ao lado tinha alguém que tinha vivido o mesmo tipo de situação mas que no final não acabou bem. Felizmente, desta vez correu melhor. Aquele momento do Éder é inesquecível. Depois, foram minutos de muitos nervos. Quando se ouve o apito final, há todo um mundo emocional que desaba, em que estamos todos agarrados uns aos outros: amigos e não-amigos. Foi um momento antológico da minha vida".  


 

 
 
Ao contrário de muitos portugueses, Nuno Gonçalves não foi festejar na artéria central da sua cidade. Nem nos Campos Elísios, em Paris. "O melhor destes momentos [lá fora] é nos estádios. A seguir, o que eu queria era estar em Alcobaça com os meus amigos. É muito bom celebrar o pós-jogo mas onde queremos estar depois é em casa. Com os aviões, só chegámos um dia e meio depois e já não era a mesma festa. Portugal, até à saída do Cristiano Ronaldo no jogo da final, não era uma equipa que estava habituada a vencer, sofria sempre um bocadinho mais do que as outras. Apesar de estarmos presentes constantemente ao longo das duas últimas décadas, sofremos sempre um bocadinho porque não estamos habituados a estar no topo. Esta seleção está talhada para aquele que é o grande objectivo: levantar a douradinha em 2022. O Europeu já está, agora falta fazer um check no Campeonato do Mundo?.  
 

Para o Euro 2020, que arranca nesta sexta-feira, dia 11, Nuno Gonçalves está com fé. ?Muito poucas selecções conseguiram ser campeãs [europeias] duas vezes seguidas. Apesar de todas a gente dizer que esta seleção tem mais valores individuais que a outra que ganhou em 2016, mas falta provar ainda. A outra seleção conseguiu ser campeã da Europa e esta ainda não conseguiu. Fé, tenho sempre, porque sou um adepto fervoroso da seleção. Desde há muitos anos atrás que sigo a seleção nos estádios. Infelizmente, este ano, por causa das condições, não é possível acompanhar. Acredito muito no grupo, no treinador, na força da seleção. Se conseguirmos passar o grupo, o sonho é permitido. Estamos no pior grupo do Europeu. O grupo de há cinco anos [onde estava Portugal] era o mais fraco de todos e mesmo assim tivemos tremendas dificuldades em passar. Esta seleção está habituada a grupos da morte. Sempre esteve e sempre teve que os ultrapassar. Ultrapassando esta grande onda que é Hungria, Alemanha e França, eu acho que tudo é possível?. 


 Para Nuno Gonçalves, o jogo mais complicado não vai ser contra os tubarões europeus que temos pela frente no Grupo F: nem Alemanha, nem França. Mas sim a equipa teoricamente mais fácil. ?Eu acho que o jogo mais difícil é o primeiro, é o que vai determinar a atitude da seleção. Se há jogo que Portugal tem obrigatoriamente que ganhar é o primeiro, não só porque é mais forte, porque está a defender um título e porque é muito importante num grupo da morte começar bem. Apesar da Hungria ser teoricamente a mais fraca, é aquela que todos têm a obrigação de ganhar. Se no final da primeira jornada, conseguirmos três pontos, significa que Portugal fez o trabalho que tinha que fazer. Tudo o resto é um acréscimo. Um ponto contra a Alemanha ou contra França, fantástico. Três pontos contra a Alemanha, zero pontos contra França, tudo bem. Agora, aqueles três primeiros pontos têm que ser conquistados. Se nos faltarem os primeiros três pontos do jogo, há vários riscos?.  

 

Quanto a apostas individuais, Nuno Gonçalves acredita no do costume. "Como os grandes jogadores do mundo, Cristiano Ronaldo está talhado para as grandes batalhas e para as grandes glórias. O Michael Jordan nunca se escondia nos jogos importantes. Mesmo quando se dizia que estava em má forma, chegava às finais e mostrava quem era. O Cristiano sempre fez isto. Quando toda a gente fala na idade, acho que este é o torneio para dar o murro na mesa e dizer: ?estou aqui?. ?Estou aqui para ajudar a selecção?. O Cristiano continua a ser o grande comandante desta selecção. Depois há evidentemente jogadores que podem dar mais à selecção e que até agora ainda não deram. Ou seja, João Félix, Bruno Fernandes, Bernardo Silva. São as eternas promessas e coqueluches da seleção que nas alturas decisivas ainda não mostraram o seu caráter. Se conseguirmos ter um Cristiano Ronaldo, apoiado por estes três nomes, com alguma rebeldia do Nuno Mendes, do Palhinha, do Pote [Pedro Gonçalves], jogadores jovens que vêm com uma dinâmica de vitória, juntamente com o Renato Sanches, que é o lado punk da seleção que não tem medo de arriscar. Depois, há que ter solidez defensiva. Pepe e Rúben Dias dão-nos segurança, o Fonte também. Com o Danilo e o William Carvalho, temos ali uma boa solidez defensiva que permita não sofrer golos e depois tentar marcá-los?.