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Gonçalo Palma
07 agosto 2022, 07:00
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Caetano Veloso faz 80 anos mas damos-lhe bem menos

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Nuno Fontinha - arquivo de 2017
Gonçalo Palma
07 agosto 2022, 07:00
Agarrou-se à dianteira da música brasileira nos anos 60, tomou-lhe o gosto e não mais largou a vista da frente.

Caetano Veloso nasceu em 1942, na pitoresca cidade de Santo Amaro, muito próximo de Salvador da Bahia, há precisamente 80 anos.

Quase sem dinheiro no bolso, foi à aventura para o Rio de Janeiro e para São Paulo, para ganhar a vida como músico. Este jovem moreno de cabelo encaracolado denso e roupas coloridas formou o movimento do tropicalismo, juntamente com Gilberto Gil, fundindo a vanguarda rock com as raízes da cultura brasileira. 

Sempre aberto a novas linguagens e mesmo a outras línguas, Caetano Veloso destacou-se logo com uma escrita exploratória, influenciada pelo concretismo, que se tornava difícil de decifrar para a censura ao serviço da ditadura militar.

Em 1967, Caetano Veloso sentiu necessidade de abanar com o sistema musical brasileiro ao compor e cantar 'Alegria, Alegria', o tema que arriscou levar para o Festival da TV Record. Houve algumas vaias mas Caetano Veloso inscreveu em definitivo o seu nome.

 

Esse tema faz parte do seu primeiro álbum homónimo, lançado em 1968, e claramente influenciado pelo psicadelismo e pelos Beatles.

 

Em 1969, Caetano Veloso e Gilberto Gil tinham sido exilados à força pelo regime militar brasileiro, depois de quatro meses na prisão. Foi nesse período de prisão e de confinamento que Caetano Veloso gravou o seu segundo álbum homónimo, em 1969, que tem como uma das canções mais famosas 'Os Argonautas', onde se ouve uma guitarra portuguesa e a inspiração num poema de Fernando Pessoa, com as famosas frases "navegar é preciso, viver não é preciso".

 

Foi Caetano Veloso que deu o nome de Maria Bethânia à sua irmã, tudo por causa de uma canção da altura com esse nome. 
Foi também Caetano que deu o nome de Maria Bethânia a uma das suas canções quando viveu durante três anos em Inglaterra, entre 1969 e 1972. Essa era uma típica canção de exílio em que rogava à irmã que lhe escrevesse cartas para saber das novidades do seu país.

 

Quase que se perde a conta às vezes que Caetano Veloso atuou em Portugal, sobretudo numa sala muito especial, o Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Foi nessa sala centenária que o músico brasileiro deu o primeiro espectáculo de sempre em Portugal, em duas noites seguidas em Setembro de 1981. O Coliseu de Lisboa rebentou pelas costuras nessas duas actuações, a segunda delas filmada pela RTP e que pode ser hoje vista na internet. 

 

Caetano Veloso cantou o fado 'Estranha Forma de Vida' e, claro, a ovacionada balada 'Leãozinho'. Essa canção faz parte do seu álbum de 1977, "Bicho", quando o cantor baiano já não usava tanto a guitarra eléctrica e estava mais virado para sons acústicos e até africanos.

 

Tal como em Portugal, houve um grande boom de novas bandas rock no Brasil no início dos anos 80. Caetano Veloso, que nunca desligou a sua guitarra eléctrica, foi apadrinhando muitas dessas novas bandas, algumas delas assumidamente influenciadas por ele como os Barão Vermelho, em especial o seu vocalista Cazuza, que Caetano conhecia antes de se tornar músico.

Caetano Veloso levou esse entusiasmo ainda mais além quando apresentou com o mais tímido Chico Buarque um programa de música em 1986, que dava espaço para novas bandas como os Legião Urbana ou os Paralamas do Sucesso. 

 

Nesses anos 80 em que reactivou o rock na sua música, Caetano Veloso continuou a derrubar fronteiras estilísticas e até linguísticas, continuando a cantar também em inglês e associando-se a músicos anglo-saxónicos radicados no Brasil. Foi o que fez em 'Shy Moon', ao lado músico inglês Ritchie, do álbum de 1984, "Velô". 

 

No disco de 1989, ?Estrangeiro?, o produtor foi o norte-americano mais abrasileirado de todos, Arto Lindsay, num álbum com uma lista de colaboradores bem internacional, como os norte-americanos Bill Frisell e Marc Ribot. 

 

Caetano Veloso nunca procurou o consenso. Por mais prémios que continue a receber, como alguns Grammys, o músico brasileiro nunca se contentou com os louros. Tal como os grandes artistas, foi sempre um inconformista, com uma vontade incessante de mudar e de arriscar novos formatos.

Essa ousadia é também política. Caetano Veloso, se teve coragem para afrontar a ditadura militar do seu país no anos 60, também não tem tido medo de criticar o actual Presidente, Jair Bolsonaro.

Mas Caetano Veloso também se vira lá para fora, muita vezes, para a política externa dos Estados Unidos. Quando em 2009, lança o álbum ?Zii e Zie?, há um tema crítico para com a ocupação militar americana de Guantánamo em 'A Base de Guantánamo'. Essa era o ciclo em que trabalhava em quarteto com a banda Cê, com quem grava três álbuns, o último deles, ?Abraçaço?, de 2012.


 

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