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Gonçalo Palma
23 setembro 2022, 16:02
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Jorge Palma: "nos anos 90, a minha imagem tornou-se mais pública"

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Rúben Viegas (www.checksound.pt)
Gonçalo Palma
23 setembro 2022, 16:02
Entrevista ao músico, que vai revisitar ao vivo os vários períodos da sua discografia, numa série de seis concertos em Lisboa, intitulada "Antologia".

Para sublinhar a efeméride do 50º aniversário do seu percurso a solo, Jorge Palma vai abraçar novo projeto ao vivo: a série de seis concertos "Antologia" em Lisboa, Antologia, onde o músico se vai dedicar em cada atuação a um ciclo específico da sua carreira, entre 25 de setembro e 19 de novembro.
 
O primeiro concerto é a solo, ao piano, já neste domingo, nos Jardins do Palácio Baldaya, em Benfica. Seguem-se até 19 de novembro, mais cinco concertos, quatro no Teatro Tivoli e o espetáculo final no Cineteatro Capitólio, com o Palma’s Gang, com Flak e Alex dos Rádio Macau, e Kalú dos Xutos & Pontapés, mas já sem Zé Pedro.  
 
Encontrámo-nos há dias com Jorge Palma, num dos corredores do Teatro Tivoli, para uma entrevista um pouco mais histórica, mas que abre portas para um futuro próximo: um novo álbum.
 
Estiveste num momento histórico da música ao vivo em Portugal. O que é que te recordas da sua passagem com os Sindikato em Vilar de Mouros, em 1971? Foi um acontecimento sócio-político para o país.
Socio-politicamente, foi uma pedrada no charco. 
 
Estiveste lá quanto tempo?
Acampei lá. Exceto o Elton John e os Manfred Mann, toda a gente acampou. 
 
Tomaste banho no rio Coura?
Claro. Não me lembro se tomava banho nu ou não. Sobretudo, passávamos os dias a tocar. Fora dos palcos, fazia-se um trio acústico improvisado de vez em quando, umas jam sessions.
 
No próprio acampamento?
Sim, por todo o espaço, que era relativamente grande. Divertimo-nos que nem uns perus. Mesmo em palco, com a banda do Sindikato, já tínhamos passado da fase de hard rock de quinteto para noneto. Portanto, incluímos sopros: trompete, trombone e dois saxofones, do Rão Kyao e do Rui Cardoso. Fazíamos sobretudo covers dos Blood, Sweat & Tears, dos Chicago Transit Authority. O contrato com o Dr. Barge [o médico lisboeta que fundou e impulsionou o Festival de Vilar de Mouros] era fazer dois concertos, mas acabámos por fazer mais em vários palcos.
 
O ambiente de Vilar de Mouros era de "loucura controlada" [um desejo expresso e repetido pelo Dr. Barge]? Sentiste liberdade ou, ao invés, opressão?
Muito mais tarde vim a saber que havia lá pessoal da PIDE a espiar. Isso foi recentemente publicado. Li isso algures. Esse sujeito [da PIDE] está basicamente a falar de "uma cambada de destrambelhados que estão a arrasar culturas", como de couves. Depois, havia outras culturas que a gente fumava. Nessa altura, já devia haver LSD, mas eu ainda não experimentava isso. O maior problema é que esgotámos o leite e o pão. A aldeia não estava preparada para tanta gente. 
 
Mas houve uma harmonia entre o velho país rural e o novo país de urbanos?
Acho que o pessoal autóctone se divertiu muito. Gostaram muito de nos ver com os cabelos compridos e não sei quê. Que eu saiba, não houve cenas de violência. Foi uma espécie de Woodstock, que tinha acontecido dois anos antes. Foi tudo muito atinado, com base no amor livre e na liberdade total. Eu tinha 21 anos e tinha crescido em ditadura. Aquilo foi uma lufada de ar fresco num país cinzento. 
 
A 7 de outubro, tu tocas no Tivoli os três álbuns dos anos 70 [Com Uma Viagem na Palma da Mão, de 1975, 'Té Já de 1977, Qualquer Coisa Pá Música, 1979]. Esse é o período em que eras um músico à boleia pela estrada fora e sobretudo pelas ruas fora. 
Antes, eu já tinha vivido na Dinamarca, porque me tinha baldado à tropa. A tropa significava dois anos cá e dois anos com uma metralhadora em África. Recusei isso, nem pensei duas vezes. Eu tinha conhecido um encenador dinamarquês que tinha cá estado no verão de 1973 e quando se foi embora me disse: "tens uma casa em Copenhaga quando quiseres". Eu já tinha chumbado por faltas na faculdade. E 15 dias antes de ser chamado a vestir a farda, consegui a licença militar que foi um milagre. Fui a Setúbal buscar a licença militar e atirei-me ao ar. Foi um sentimento de alívio: "ih pá, vou-me embora daqui". Estive um ano em Copenhaga, em que aprendi tudo menos a língua.    
 
Nessa altura, já existia a zona hippie de Christiania, em Copenhaga. Chegaste a lá estar?
Nesse ano, não. Fiz vida de menino certinho, porque eu estava em casa desses amigos meus, onde havia um piano e onde eu compus no fundo o meu primeiro álbum [Com Uma Viagem na Palma da Mão] e bebi muita cerveja com os meus amigos de lá. Aos fins-de-semana, embebedavam-se mesmo. Durante a semana, não, era trabalho ou estudo, e estudo e trabalho ao mesmo tempo. Todos os jovens adultos com quem vivia nessa casa estudavam e trabalhavam. E viviam fora da casa dos pais, que foi uma coisa que estranhei (risos). Frequentava os meus pubs e foi lá que vi pela primeira vez os Rolling Stones. Foi um concertão. Nem tive conhecimento na altura da ocupação desse espaço [Christiania], que era um antigo quarteirão militar, que tinha sido abandonado e que o pessoal ocupou. Anos mais tarde, passei lá, com uma guitarra às costas em 1978-79. Andámos pela Dinamarca, Holanda, Suíça.
 
E Paris?
Isso acontece a partir de 1977. No ano de 1976, entrei no grupo do chuto. Comecei a experimentar essas drogas, heroínas e cocas. No verão de 1977, eu disse: "isto não dá, não é para mim". Peguei na guitarra com cinquenta paus no bolso e fui para Espanha. Percebi que dava para viver com o básico, a tocar na rua. Eu ainda não tinha experiência nenhuma. Fui adquirindo. O que eu cantava era Bob Dylan, Paul Simon, James Taylor e Crosby, Stills & Nash e essas coisas.  
 
Também tocaste um tema de Sérgio Godinho, em frente ao próprio, no metro de Paris.
Encontrei-o duas vezes. Ele não se lembra de uma das vezes: nós ao lado um do outro numa pequena tabacaria, a comprar cigarros. Olho para o lado, o gajo olha para mim... É preciso mesmo pontaria, encontrarmo-nos num dos milhares de tabac de Paris. A outra ele lembra-se muito bem. Eu tocava dentro das carruagens do metro. Há um momento em que olho para o fim da carruagem e vejo o Sérgio. Não sei o que é que toquei, talvez a 'Noite Passada'. Claro que fomos beber um copo. Estamos a falar de 1978 ou 1979. Encontrei bastante gente: o Pedro Osório, o Júlio Pereira. Não encontrei o Zeca Afonso, mas a minha mulher encontrou-o. 
 
Tocaste tanto no metro, como em frente a filas para o cinema. Qual foi a situação mais surrealista em que tocaste? 
De repente, não me estou a lembrar. Tocar nos corredores do metro demorava mais tempo a fazer dinheiro. A gente tocava e algumas pessoas paravam e ouviam, alguns só davam a moeda e a maior parte das pessoas não dava nada. Ninguém parava. Dentro das carruagens, uma pessoa encurrala-os. Pelo menos, durante duas estações, eles têm que me ouvir. Eu tocava duas canções, às vezes três. Depois, eu passava com o chapéu, ou alguém passava o chapéu por mim. E íamos para a outra carruagem. Os controladores e os polícias não nos chateavam nessa altura. Não pagávamos, estávamos sempre a entrar e a sair do metro. De vez em quando, vínhamos à superfície beber uma imperial ou apanhar ar. Aquelas barreiras antigas era só saltar. Não nos chateavam, estávamos completamente à vontade. Nas esplanadas em Paris, em espaços ao ar livre, ou no Centro Georges Pompidou, também ninguém se importava. Nas filas para o cinema, também não havia problemas, mas em Londres, ficámos a perceber uma coisa: aquilo estava controlado por grupos, pessoal inglês que tinha horários.  
 
Havia escalas, portanto.
Sim. Aparecíamos para tocar e diziam-nos logo: "nã, nã, nã, não podem tocar aqui a esta hora. Não podem ocupar este espaço agora, que é para aquele ali". Depois apareciamos à hora que eles diziam que podiamos tocar mas que, afinal, não podiamos, porque já lá estava outro. Numa fila para o cinema, houve uma situação em que eu estava a tocar bluegrass com dois americanos e um sueco. De repente, começamos a ouvir bombos e gaita-de-foles, que eram os donos daquele espaço. A polícia também chateava. Em Inglaterra, não nos demos muito bem e estivemos lá pouco tempo.
 
Paris foi mais agradável.
Toda a França, nessa altura. E as pessoas davam dinheiro com um ar mais contente.
 
No concerto de dia 26 de outubro, vais tocar os álbuns entre 1982 e 1985 [Acto Contínuo, de 1982, Asas e Penas, de 1984, e O Lado Errado da Noite, de 1985]. Como é que foi a tua reintegração na música portuguesa nessa altura? 
Quando volto em 1980, começo a ouvir a rádio a passar só rock português. "O que é que aconteceu aqui?". Tinha sido o [álbum de estreia] "Ar de Rock" do Rui Veloso que tinha partido esta m#rd# toda. Aliás, abafou completamente esse meu terceiro disco, Qualquer Coisa Pá Música. Desde o final da adolescência que o pessoal da música e das editoras conhecia um puto que era o Jorge Palma, que tinha jeito e tocava porreiro. O grande público ainda não me conhecia. Mas no meio musical, toda a gente me conhecia. Antes de me ter ido embora, eu já tinha trabalhado em orquestrações para outros músicos. O Mário Martins, da Valentim de Carvalho, acreditou em mim desde o princípio. Gravei o Qualquer Coisa Pá Música, voltei para Paris. Em 1981 é que decido parar para pensar, ter um filho, essas coisas. Com um piano em casa, decido estudar música outra vez. Nesses tempos lá fora, fiz vinte e tal canções que eu queria gravar. Sempre me habituei a ir bater à porta das editoras. Se uma não quer, OK, eu vou à outra. Arranjei sempre maneira de alguém me pagar as gravações e editar o disco, o que é uma sorte do caraças.  

 A 1 de Novembro, tocas os discos Quarto Minguante (de 1986), Bairro do Amor (de 1989) e Jorge Palma (Proibido Fumar) (de 2001). É neste final dos anos 80 e início dos anos 90 que sentes o crescimento de um público mais jovem nos teus concertos?
O reconhecimento do meu trabalho foi muito gradual. Quando voltei no início dos anos 80, gravei as tais vinte e tal canções. Em 1985, O Lado Errado da Noite teve um sucesso relativo. Foi um salto em termos de popularidade. Depois fui fazendo álbuns. O Quarto Minguante não teve nenhum sucesso, e eu compreendo porquê, foi uma coisa mais experimental e não tinha canções tão orelhudas, como tinha o anterior, O Lado Errado da Noite. Depois, quando faço o Bairro do Amor, já muita gente me conhecia e já fazia muitos concertos com as minhas bandas, que foram mudando ao longo do tempo. 
 
Temos tido um Jorge Palma muito revisitador da sua história, de várias formas. Quando é que volta o Jorge Palma criador de canções novas? 
Estou perto de concluir um disco novo. Da minha parte, espero que esteja tudo feito até dezembro. Depois, são as misturas e as capas. Tenho dez ou onze canções feitas. 
 
Foram gravados com a tua banda?
Com a minha banda e com músicos convidados também, daqueles amigos do peito de há muito tempo: o Júlio Pereira, o Rão Kyao, o Tomás Pimentel. Pessoal da velha guarda. Desde o primeiro álbum, em que pensei que ia ter sucesso, que me habituei a não ter expetativas. É curioso porque nos anos 90, além de ter gravado o Só, que não é propriamente um álbum de originais, tive o complemento do Palma’s Gang, que é rockalhada a abrir. Não gravei nenhum álbum de originais, mas trabalhei e compus muito para teatro. Trabalhei com o Rui Madeira, da companhia do Theatro Circo, em Braga, com o Jorge Silva Melo e com gente muito interessante e boa. Aprendi muito. Houve coisas que fizeram subir a minha popularidade, como os Rio Grande, que tiveram um sucesso estrondoso que não estávamos à espera. Era o Rui Veloso, o Tim, o João Gil, o Vitorino e eu. Corremos o país todo. Fartámo-nos de trabalhar, mas foi muito bom. A minha imagem foi-se tornando mais pública. Depois, com [quase] as mesmas pessoas, formámos os Cabeças no Ar no final do século.
 
As datas lisboetas de "Antologia" são estas:
 
25 de Setembro, nos Jardins do Palácio Baldaya, em Benfica (a solo)
7 de Outubro, no Teatro Tivoli BBVA (centrado os álbuns “Com Uma Viagem na Palma da Mão”, “'Té Já” e “Qualquer Coisa Pá Música”)
26 de outubro, no Teatro Tivoli BBVA  (centrado nos álbuns "Acto Contínuo", "Asas e Penas" e "Lado Errado da Noite")
1 de Novembro no Teatro Tivoli BBVA (centrado nos álbuns "Quarto Minguante", "Bairro do Amor" e "Jorge Palma (Proibido Fumar)"; e dia
8 de novembro, no Teatro Tivoli BBVA (centrado nos álbuns "Norte", "Voo Nocturno" e "Com Todo o Respeito").
19 de Novembro, no Cineteatro Capitólio (reencontro com o Palma’s Gang). 
 

 
 
 
 

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