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07h às 11h
Silvia Mendes
26 julho 2019, 03:30
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Tom Jones: um autêntico "Sir" da música

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Silvia Mendes
26 julho 2019, 03:30
O músico galês voltou a Portugal para uma autêntica ode ao blues, gospel, ao funk (e muito mais) no EDP Cool Jazz, em Cascais. Com um carisma e voz impressionantes, Sir Jones mexeu em clássicos eternos (com toda a distinção) e ainda levou os seus, claro.


Foram 16 anos sem avistar Tom Jones por perto, em solo português. A espera pelo "Sir" galês foi saciada esta noite com 23 canções que andaram à solta pelas raízes históricas do blues, pela fruição do rock, pela alma do gospel e até pela pop e funk mais atrevidos. Apesar da noite ter estado demasiado fresca para final de julho, o recinto do EDP Cool Jazz esteve em risco de sobreaquecer com a presença, carisma e atrevimento do músico veterano. A noite foi quente e de homenagens (a gente de peso) que tiveram o toque elegante de um senhor. Houve intimidade, reflexão e uns quantos momentos a ferver que terão desafiado a compostura mais resistente de muitos que estiveram no Hipódromo Manuel Possolo.  

Sir Tom Jones chegou ao palco com o elenco clássico do bom e velho rock n'roll a abrir-lhe caminho: som de guitarra, bateria e baixo. Antes de o vermos, até tivemos a sensação de que poderíamos estar à espera de uma velha lenda do rock n' roll, quem sabe, oriunda dos confins do sul da América, mas não. Quem estava para chegar era Tom Jones que fê-lo num aprumado fato azul escuro, de sorriso aberto e munido do sotaque britânico que a origem galesa lhe deu

Com o céu do palco em tons avermelhados e o ecrã "a ser consumido" por labaredas de impor respeito, Tom Jones entrou em cena bem-disposto, a transbordar energia e mais do que pronto para levar o público pela mão pelos imaginários que fez questão de homenagear

'Burning Hell', de John Lee Hooker, foi a canção que abriu o alinhamento e a primeira visita, em tons quentes, ao rico universo do blues. "Estão todos bem? Vamos passar bons momentos juntos.", disse Tom Jones a todos. O clássico da folk norte-americana 'Run On' (também conhecido por 'God's Gonna Cut You Down') foi a segunda homenagem ao legado musical da América. Antes de se atirar à canção,  Jones preparou o tema com uma história dos tempos em que costumava estar com Elvis Presley durante as residências que ambos tiveram em Las Vegas. Parece que, entre muitos dedos de conversa, os dois músicos ouviam canções de gospel, o género preferido do Rei. "Vou cantar-vos uma canção que costumávamos cantar juntos", confidenciou-nos, com nostalgia, antes de seguir em frente com uma versão do tema bem mais acelerada do que a conhecida versão de Johnny Cash.

'Mama Told Not To Come', de Randy Newman, antecipou um intenso e soulful  'Did Trouble Me', de Susan Werner. "Isto vai fazer-vos pensar, a mim faz-me pensar", avisou Tom Jones, um pouco antes de soltar as primeiras notas. A força do órgão, entrelaçada com a força da voz do barítono britânico, transportou-nos para reminiscências religiosas com potencial para arrepiar pessoas de todos os credos. Depois do momento de solenidade evangélica, começaram os primeiros passos de dança no recinto com a passagem pelo clássico do tradicional cancioneiro norte-americano, 'Raise a Ruckus'. "Alright!", exclamou Tom Jones claramente entusiasmado.

O fundo de palco, agora em tons alaranjados, criou o clima para 'Sex Bomb', o hit que, aos primeiros acordes, arrancou aplausos em todo o recinto e até gritos dos menos acanhados. Contrariando a versão oficial que ecoa nas rádios, Tom Jones deu-lhe um início mais entregue aos blues com o cuidado de expandir a canção o suficiente para mexer com os "desejos mais imediatos e carnais" da plateia. Fê-lo com elegância, à medida que ia saboreando a letra e colocando a voz à mercê das frases mais marotas. Feitas as contas ao momento rico em sensualidade, houve um clímax que terá sido tão bom para Tom Jones como foi para o público.  

"Agora queremos levar-vos até aos anos 50 e tocar algumas canções de rock n'roll da década de cinquenta, quando o rock n'roll começou." As palavras do músico antecederam 'Fever' e 'Take My Love (I Want to Give It All to You)' do histórico Little Willie John - (nós avisámos, a noite foi de homenagens a grandes). Seguiu-se o clássico 'Cry To Me', de Solomon Burke, e mais uma história. "Solomon gravou [a canção] em 1962 e depois foi usada no filme "Dirty Dancing" com Patrick Swayze e Jennifer Grey", esclareceu os que talvez não soubessem. Foi então nessa altura que o músico lendário começou, em jeito de brincadeira, a simular uma das cenas mais quentes do icónico filme de 1987, ondulando a anca à volta do microfone, ao mesmo tempo em que mordia o lábio com convicção, a piscar o olho novamente à "malandrice". 

A famosa 'Delilah' (gravada no final dos anos sessenta) foi, claro, outra das cartadas (agora sua) distribuídas por Tom Jones. Esta noite, a murder ballad foi salpicada, a dada altura, com ritmos mais quentes a lembrar outra América, a do sul. 

A viagem pelos originais que deram a conhecer Tom Jones ao mundo, na segunda metade dos anos sessenta, foi ostentada com orgulho. 'Green, Green Grass of Home', 'What's New Pussycat' e 'It's Not Unusual', esta última a respirar ares de bossa nova, foram fortemente aplaudidos por uma plateia que tinha urgência em manifestar sinais de reconhecimento pelas canções do músico que acompanharam a juventude de muitos que ali estavam.

'Soul of a Man' de Blind Willie Johnson evocou, de uma vez por todas, o espírito do blues e do gospel movido em terreno mais religioso, com Tom Jones a encetar o tema com intimidade, chegando ao pico da canção a pedir respostas ou algum tipo de redenção urgente.

'Tower of Song', de Leonard Cohen, também emocionou o público que nem deixou o "monumento" em forma de canção acabar para bater palmas sentidas, achamos nós, numa homenagem ao compositor canadiano que nos deixou em 2016. 'I'll Never Fall In Love Again', com lanternas esvoaçantes agora a decorar o palco, foi tocado ao piano com a voz do barítono galês a falar aos corações dos românticos perdidos sem garantias imediatas de remendo cardíaco. Uma vénia de Tom Jones selou o momento de grande intimidade e beleza.

A versão de 'You Can Leave Your Hat On' meteu gente a balançar a anca e a rodar camisolas no ar, 'If I Only Knew' e 'I Wish You Would', de Billy Boy Arnold, levaram-nos, com direito a autênticas proezas instrumentais, até ao encore. Louis Armstrong também teve direito a homenagem com o idílico e reconfortante 'What a Wonderful World'. Logo depois, Tom Jones avançou para um funky e energético 'Kiss' de Prince. A declaração de amor, ao país que o recebeu, coube na frase eficaz para o efeito: "Portugal, we love you". Uma "canção de rock n' roll, blues, boogie woogie e gospel", como descreveu Tom Jones, ficou guardada para o final. O clássico dos anos 40, 'Strange Things Happen Everyday', resumiu a ode à música do género que foi este concerto. Tom Jones despediu-se do público não sem antes mencionar a bandeira do País de Gales que conseguiu avistar do palco. Fica a questão: será que também avistou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que estava na primeira fila? 

Este artigo não tem fotografias do concerto porque não foi dada permissão para a captação de imagens.


 

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