U2: 50 canções para 40 anos de discos (do 30º ao 21º)

A contagem já vai a meio. Acaba no domingo, quando se celebrar os 40 anos do início da discografia dos U2.

Os U2 prolongaram a época das grandes bandas rock. Há mesmo quem os trate como "a última grande banda rock". Os Beatles, os Rolling Stones, os Pink Floyd, os Led Zeppelin ou os Queen tinham deixado a fasquia muito alta, num misto de grandeza (sucesso, fama) e qualidade (dimensão de reportório, talento ao vivo) que os U2 conseguiram alcançar.

Mas tudo começou para eles de forma pequenina na Irlanda, quando eram garotos urbanos sub-20 e lançaram o primeiro disco de todos, o EP "Three", a 22 de setembro de 1979, faz no próximo domingo 40 anos. 

Nesta contagem das 50 melhores canções do universo dos U2 (uma seleção assumidamente subjetiva), já vamos a meio, entre o 30º e o 21º. 

30º 'Ultraviolet (Light My Way)' > do álbum de 1991, "Achtung Baby"
Não é a balada mais óbvia mas é uma canção recorrente nos encores e das mais tocadas dos U2. Tem uma espiritualidade que reforça o postulado criativo que é o álbum mais revolucionário da banda de Dublin, "Achtung Baby". Em 1992, antes de cantar esta música de procura pela transcendência, Bono, possuído por uma das suas personagens, telefonava à Casa Branca para tentar falar com George Bush, o Presidente então dos Estados Unidos, em pleno concerto.

 

29º 'Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me' > single de 1995
O vídeo encerra o ciclo da Zoo TV na banda. As personagens de Bono, The Fly e MacPhisto, fazem as suas despedidas, tal como a paródia futurista dos U2 iniciada em 1991. O tema foi dado para a banda sonora da sequela cinematográfica "Batman Para Sempre". É talvez a canção dos U2 escrita para filmes mais popular. Pouco importa se foi nomeada para o Razzie (o prémio Framboesa) para Pior Canção Original.


 
28º 'The Refugee' > do álbum de 1983, "War"
'The Refugee' não é bem o tema-título do terceiro álbum War, mas é como se fosse, com aquela entoação tão coletiva de "war, war?. Quase que se imagina os U2 numa embarcação, com um arsenal de canhões a bombardear, que é na verdade o trabalho percurssivo magnífico do baterista Larry Mullen Jr, antes do cântico vitorioso de piratas de todo o grupo. Na verdade, a canção é um grito de socorro, da refugiada, a sonhar com a Terra Prometida que, tal como para os U2, é a América. 'The Refugee' nunca foi um tema que os U2 levassem para palco. Mas se o levassem hoje, teriam que dedicá-lo às vagas de refugiados centro-americanos que tentam fugir para os Estados Unidos - ou mesmo, a todos os refugiados em todo o mundo, incluindo no Mediterrâneo.   

 

27º '11 O'Clock Tick Tock' > single de 1980
O fã de música Bono tem tido a sorte de ter conhecido pessoalmente muitos dos seus ídolos, autênticas lendas: Frank Sinatra, Johnny Cash, Bob Dylan, Van Morrison, Leonard Cohen, Rolling Stones, Paul McCartney, Patti Smith ou Bruce Sprinsteen, só para citar alguns. Mas antes dos benefícios de estrela, quando era um músico ainda obscuro, teve a oportunidade de ter falado com o cavalheiríssimo Ian Curtis, durante a sessão de gravação do single histórico dos Joy Division, 'Love Will Tear Us Apart'. Esse encontro aconteceu porque o produtor inventivo dos Joy Division, Martin Hannett, iria trabalhar com os U2 no single '11 O'Clock Tick Tock', que faz parte da leva de canções mais antiga da banda irlandesa. Mas as coisas não correram muito bem, os U2 não acharam muita graça à supremacia autoral de Hannett. Para os U2, o trabalho de produtor não poderia ter um peso que soterrasse o da banda. '11 O'Clock Tick Tock' cresceria em palco, com a cosedura cada vez mais elaborada de The Edge na guitarra elétrica. Em Red Rocks, em 1983, a canção escalava já num pico emocional que pedia dança, algo que nunca poderia acontecer nesta atuação em baixo, num programa de televisão sueco, diante de espetadores sentados e fúnebres.    


26º 'Vertigo' > do álbum de 2004, "How to Dismantle an Atomic Bomb"
Um dos principais fotógrafos dos U2, Anton Corbjin, é particular fã de Portugal. Para os seus trabalhos fotográficos e videográficos, já trouxe cá os Depeche Mode ou os Therapy?. Mais tarde ou mais cedo iria trazer ao nosso país os U2. Isso aconteceu em 2004, quando os levou a alguns dos seus recantos favoritos como a piscina de hotel da Praia Grande, em Sintra, a zona industrial do Barreiro, ou a discoteca Lux, em Lisboa. As sessões de fotos e de filmagens serviam para a promoção ao álbum "How to Dismantle an Atomic Bomb" e para a realização de um vídeo para a versão remix de 'Vertigo'. Foi esta canção veloz que deu nome à digressão mundial de 2005-06, cujo itinerário europeu terminaria com um concerto no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 14 de agosto de 2005. Horas antes, o Presidente da República de Portugal, Jorge Sampaio, chamou-os ao Palácio de Belém, para uma condecoração transmitida em direto pelas nossas televisões. Na ocasião solene, Bono pediu ajuda a África.

 

25º Passengers - 'Slug' > do álbum de 1995, "Original Soundtracks 1"
Os U2 embarcam em mais um belíssimo sonho de Brian Eno, este mesmo, que é uma das várias sobras instrumentais que foi aproveitando de sessões de gravação anteriores com a banda. Se Eno é o deus criador destas nuvens de sintetizadores que cintilam neste tema, Bono é o cantor sereno, que se inspira como letrista numa situação que viveu à sua frente, quando viu membros de um gangue criminoso japonês com dedos amputados, numa noite em Tóquio. O tema esteve para ficar de fora de "Original Soundtracks 1". Foi The Edge que o salvou à última hora. 


24º 'Lemon' > do álbum de 1993, "Zooropa"
É talvez o maior falsete de Bono em toda a sua carreira, num dos mais longos temas de sempre dos U2 (praticamente sete minutos). 'Lemon' foi uma das três canções de Zooropa escolhida para single e foi só tocada ao vivo nos últimos concertos da Zoo TV Tour, com Bono na pele do demónio do cabaret MacPhisto. O ponto de partida para este tema foi a receção no correio de um filme antigo em super 8, com a mãe de Bono, ainda jovem, vestida de amarelo limão, num casamento. A necessidade de preservação de memória da mãe, que perdeu aos 14 anos, empurrou Bono para a letra de Lemon: "A man makes a picture/A moving picture/Through the light projected/He can see himself up close".


23º 'Celebration' > single de 1982
Esta canção, que não pertence a nenhum álbum, foi o primeiro sinal do ativismo dos U2. O andamento da canção é empolgante, com a guitarra vivinha da silva de The Edge, enquanto Bono recorria à ironia para os perigos de uma guerra nuclear. 'Celebration' foi o prenúncio do álbum de 1993, "War".


22º 'Until the End of the World' > do álbum de 1991, "Achtung Baby"
Aos trinta e poucos anos, Bono redescobriu-se com poderes de Elvis na Zoo TV Tour, possuído de rebeldia e por um sarcasmo teatralizado. E agigantou-se em canções como esta, onde corria pela língua de palco e se metia com as câmaras de filmagem de serviço, simulando um ato sexual. Se os U2 foram à Berlim recém-reunificada para se inspirarem e se alguma coisa absorveram, foi seguramente numa canção maior como esta, dada de bandeja a outro berlinense, o cineasta Wim Wenders, que a usou no filme com o mesmo nome, "Until the End of the World". 

 

21º Clannad - 'Theme from Harry's Game' > para o filme-concerto de 1984 "Live at Red Rocks: Under a Blood Red Sky"
Pode não ser uma canção dos U2, mas definitivamente pertence ao universo do grupo, desde que foi escolhida para a abertura e fecho do lindíssimo ?Live at Red Rocks?. Nunca mais um fã de U2 que tenha visto este filme-concerto desprenderá a voz gaélica de Enya e os arranjos etéreos dos Clannad daquelas imagens chuvosas na difícil preparação do concerto em 1983 e daquelas tochas imponentes a iluminar o anfiteatro no final da noite. 'Theme from Harry's Game' é inspirado nos problemas da Irlanda do Norte, o que tem tudo a ver com o contexto do álbum "War" e da sua canção mais célebre 'Sunday Bloody Sunday'.