Pouco jazz mas muitas recordações com os Pretenders e Rita Redshoes no edpcooljazz

O grupo da rockeira Chrissie Hynde atuou no Estádio Municipal de Oeiras.

Na segunda noite de edpcooljazz 2017 muita “coisa” musical boa aconteceu.

Com uma tarde quente e uma noite fria, como é comum para os lados de Oeiras, o edpcooljazz marca a diferença por ser um festival que acontece a um ritmo mais tranquilo. Todos têm tempo e opções de jantar, todos têm lugar de estacionamento relativamente perto do local dos espetáculos e todos estão ali com o propósito de escutar boa música, enquanto o diálogo a dois ou entre amigos é sempre possível.

Às 21h30 a portuguesa Rita Redshoes abrilhanta o palco. Vestida de vermelho integral, a cantora mostra porque é que, paulatinamente, se tem tornado um nome seguro entre os bons da pop portuguesa, com o melhor que o género nos pode oferecer. Tigerman e David Fonseca, dois dos seus grandes apoiantes, oxalá a tenham visto ontem porque esteve magnífica. 'Life Is Huge', do álbum "Her", do ano passado, foi das primeiras da noite. Em 2008 o seu álbum de estreia "Golden Era" chegou à imprensa dentro de um sapato vermelho em cartão. A curiosidade era muita por esta moça de ar sério mas delicado que nos prometia músicas bonitas e sentidas num bom embrulho musical. Assim se cumpriu e no edpcolljazz ouvimos, desse tempo, 'The Beginning Song', uma das mais emblemáticas da sua carreira. Pouco depois, é tempo de recordar a avó para quem compôs 'Your Waltz' que nos toca ao piano. A mudança para a guitarra ocorre num tributo a Nina Simone, cuja "alma" Rita Redshoes abraça numa deliciosa combinação.

No ano passado, precisamente no álbum de apelo feminino intitulado "Her", Rita Redshoes começou a arriscar cantar em português. Em boa hora o fez e aqui nos brindou com o "hino" 'Mulher'. O álbum "Golden Era" foi, igualmente, uma revisitação certeira com 'Choose Love' a receber muitos aplausos, bem como 'Captain of My Soul', de 2010.

Cerca de uma hora de concerto depois, eis que os Pretenders aparecem no palco do Estádio Municipal de Oeiras prontos a dar tudo neste regresso a Portugal onde não vinham desde 1999.

Aos 65 anos, Chrissie Hynde continua fiel ao estilo que nos apaixonou. De t-shirt onde se lê "Elvis", o cabelo desalinhado e aquela maquilhagem toda punk, a cantora mantém-se de tal forma crítica à indústria do entretenimento que terá pedido para avisarem o público de que não queria telemóveis apontados a ela. De certa forma resultou, mas os efeitos coloridos dos brindes distribuídos à entrada talvez não lhe tenham agradado muito.

O tema que abre o concerto é 'Alone', precisamente o single com o mesmo nome do álbum lançado no final do ano passado, a que se segue 'Gotta Wait' numa onda muito punk, a mostrar aos jovens fãs como é que as coisas se fazem. De referir que o mais recente disco dos Pretenders foi produzido por Dan Auerbach, dos Black Keys, que é natural de Akron, no Ohio, tal como a própria Chrissie Hynde que gravou o álbum em Nashville.

Ao convite para dançar «aqui, nas filas da frente», segue-se 'Don't Get Me Wrong' para adoçar o bico às gerações mais antigas, amplamente representadas no edpcooljazz, e que também vibraram com 'Talk of the Town', outra das antigas.

Sem falar por longos períodos, a cantora faz algumas tentativas em português, que justifica com a intimidade que mantém com os brasileiros Caetano Veloso e Moreno Veloso. «Rock and roll é tudo o que vamos ouvir esta noite» assegura a artista, e ainda bem que o som no recinto está em excelentes condições; tudo se ouve bem, todos os instrumentos nos chegam com clareza.

No concerto também houve homenagem aos Kinks com 'Stop Your Sobbing' o tema que, curiosamente, estava no lado B do single de vinil de 'Precious', um tema gravado em 79 e o escolhido para fechar o concerto, já em encore.

Muito carnal, a líder dos Pretenders é uma rockeira de mão cheia, com aquela atitude que nos encoraja a dar um murro da mesa e a dizer "não aceito" sempre que é preciso. E ela não aceita. Não aceita rótulos mainstream. Não aceita a cultura dos Grammys. Não aceita que se matem animais para comer (desde os seus 18 anos). Aceita, isso sim, fazer uma ou outra piadinha de cariz mais sexual mas advertindo alguém que na audiência vai mais longe com um «não vás por aí». Agressiva, toca-nos 'Boots in Chinese Plastic'. Voltamos aos "clássicos" e, ao fechar os olhos, a sensação é a de estar a ouvir uma cassette original nos anos 80 porque a voz de Hynde está igualzinha ao que sempre foi. Dança-se 'Chain Gang' e 'Brass in Pocket', quando ela larga a viola para só desfilar sensual pelo palco.

Já mesmo a fechar não podia faltar 'I'll Stand By You', a baladona que toda a gente conhece e canta do princípio ao fim entre beijos apaixonados. Ainda temos direito a um solo de bateria e já em encore vem 'The Wait' - a espera - que desejamos não venha a ser tão grande pelo próximo concerto.

Foto: DR