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Reportagem: Pelas montanhas do Grande Cáucaso, parte II
Gonçalo Câmara
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Reportagem: Pelas montanhas do Grande Cáucaso, parte II

Gonçalo Câmara

Acompanhe a segunda parte desta aventura.

De Svaneti fui para outra zona montanhosa: Kazbegi. Se a primeira é pura, a segunda é imponente. As montanhas circundam toda a zona para onde quer que queiramos olhar. Fui a pé da cidade até à igreja que fica no topo com vista para o Monte Kazbek.

Saindo de Kazbegi em direcção a Gergeti - vila pacata vizinha da primeira - começamos a encontrar o trilho por entre um vale que nos levará à Gergeti Trinity Church. Uma caminhada ascendente de uma hora e quarenta que nos leva até ao séc. XIV.

Fica perto do Monte Kazbek, que naquele dia se mostrou tímido a quem o quis contemplar. Este templo ortodoxo georgiano está quase a 2200m de altitude.

Durante a invasão persa, várias relíquias preciosas vieram aqui parar por segurança. Durante a era soviética da antiga URSS, todos os serviços religiosos foram proibidos e com a queda do Muro de Berlim, crentes voltaram aqui para rezar.

Depois de a ver por dentro, afastei-me para conseguir apanhá-la bem enquadrada perante o Grande Cáucaso.

 

De Kazbegi parti também para caminhar no Truso Valley, uma extensão extraordinária sem ninguém. Sempre em frente, passando por vilas abandonadas e fortalezas em ruínas. Começa em Kvemo Okrokana e termina perto da Ossétia, junto à fronteira russa onde estão sempre dois soldados com quem tive oportunidade de falar.

Trilho imenso e cheio de vida natural. Mais um dia cheio na Geórgia. O meu quarto tem Netflix e por isso quando preciso recuperar fôlego e ajudar os pés a descansar, nada melhor que umas horas pelo hostel, sempre com o Monte Kazbek ao fundo, como quem protege quem adormece.

Dia seguinte: caminhada por Juta. Entre Juta e Roshka, passando pelo Chaukhi pass. Chego aos 3300m de altitude, cansado e começo a descer até encontrar umas lagoas magníficas. O caminho é duro mas a recompensa acompanha sempre a dor.

Parei uns dias para escrever com vista para a montanha, provei shasha em casa de um casal de idosos que também me deu a provar fígado de galinha. Não fiz fita e comi tudo como gente grande apesar de repudiar fígado do que quer que seja. Lá está. Em viagem tudo se faz.

Regresso à base em Tbilisi para por a cabeça em ordem e digerir tudo o que vivi na montanha. É tempo de começar a pensar no regresso. Ainda assim, houve tempo também de rumar a Sul para olhar os mosteiros escavados nas rochas do monte Erusheli, em Vardzia. Fica nas margens do Rio Kura.

 

Começou a ser construído na segunda metade do séc. XII por Georgi III, na altura Rei, e ficou completo com a sua filha, Tamara, em 1185.

 

Era a época das invasões mongóis e, por isso, Tamara ordenou que toda a zona fosse expandida para servir também de santuário. Uma escarpa com dezenas e dezenas de buracos escavados na rocha.

 

Este mosteiro escondido já teve 13 andares, 13 igrejas, várias bibliotecas, 25 adegas para guardar o vinho e a capacidade de abrigar cerca de dois mil monges.

A montanha à volta do mosteiro era toda ela cultivada para que pudessem viver auto-suficientes.

 

O período de ouro deste espaço durou apenas um século. No final do séc. XIII, um terramoto devastou o mosteiro. Vardzia ficou soterrada. Depois do país ser invadido pelos persas, no séc. XVI, onde houve uma grande batalha nas cavernas, Varzia ficou abandonada.

 

Hoje, é isto que temos, uma história para contar e uma montanha escavada para apreciar.

 

Volto à vida agitada de Tbilisi, recordo com saudade o espírito da montanha imponente que, sem nada dizer, nos conta tanto pedindo firmeza. Vagueio e escrevo pela zona velha da cidade, provo vinho Georgiano, passo a noite numa residência literária com outros autores e começou a sonhar com casa. É tempo de regressar.

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